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No quintal dos meus avós

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Éramos seis netos brincando na casa dos avós paternos, cujo ambiente trazia ares machadiano. Os modos cerimoniosos e vocabulário rebuscado encenados na sala nos convidavam a brincar no quintal. O piso lá de fora era de concreto cinza e não foram poucas as vezes que meus dedões dos pés toparam contra a superfície áspera fazendo transbordar o vermelho escuro de dentro da pele que antecede a unha.

Bem atrás do muro do quintal havia as janelas da única delegacia da cidade. Não raro as frestas das vidraças se tornavam um sorriso aberto para que dentro delas tentássemos jogar os pequenos limões que caíam de um limoeiro beirando o muro. A adrenalina se elevava ao alto escalão da autoridade municipal. O que faríamos se um dia o delegado, ao invés de fazer uma limonada, tocasse a campainha e mandassem nos chamar?

Um portão conjugava o quintal com uma edícula da casa vizinha, onde morava um casal. A mulher ajudava minha avó nas funções da casa. O homem, não sei o que fazia além de frequentar os botecos da cidade. Quando ele voltava da rua, nossa diversão era afastada para longe. A mulher lhe dava broncas resignadas. Ele retrucava com agressividade assertiva, como o filho mimado, só que adulto.

Não me lembro o nome dela. O nome dele a gente achava engraçado. Foi a primeira vez que conheci alguém chamado Aristóteles.

Fred Linardi

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Lançamento: Figurinha – O Palhaço sobre rodas

É com muita alegria que noticiamos, para nossos respeitabilíssimos  leitores, a entrega de mais um projeto dentro da variedade de opções de formatos que os textos biográficos comportam. Alegria também estar no terceiro projeto do gênero com o Circo Navegador, que nesta realização contou com o importante apoio do Proac – lei estadual de incentivo à cultura.

Trata-se de uma revista que conta a biografia de Nelson Garcia, o Palhaço Figurinha, integrante de dois dos circos mais tradicionais e famosos do Brasil (o Garcia e o Piolim) nas décadas de 40 e 50.

Representante estelar da arte da diversão, Nelson Garcia iniciou a carreira sob a alcunha de Pinguim, antes de ser rebatizado pelo seu pai (o qual compreendemos perfeitamente, afinal, um pinguim nos trópicos só podia ser coisa de uma gigantesca Figura, epíteto suavizado pela quantidade de carinho que inspirava).

Com o advento da televisão, o circo – antes de ver sua arena virar antena – foi por muitos anos a maior fonte de entretenimento e cultura da sociedade, inclusive no Brasil, visitando e disseminando a sua magia tanto nas capitais quanto nas regiões mais recônditas do país.
Além de alimentar o aspecto lúdico intrínseco à natureza humana, o circo foi um dos laboratórios das primeiras experiências do que chamamos hoje de globalização. Não em referência ao Globo da Morte, que contava com a participação do Figurinha pedalando sua bicicleta em meio às motos de roncos selvagens que aceleravam a respiração e batimento cardíaco de toda a plateia. Mas sim pelo fato de ser um veículo de informação, que transitava levando todo um universo para as pequenas cidades. Sob a lona, o resultado da criação e convívio de artistas provenientes de várias etnias e ascendências como alemães, poloneses, russos, ciganos e dá-lhe etc.!

Imagine as experiências que essa comunhão podia proporcionar, ainda mais nas excursões que as companhias faziam pelo interior dos interiores em cidades do nordeste, por exemplo?

Figurinha, que hoje brilha nos picadeiros celestiais, também se caracterizava por uma completa adaptação entre as dimensões moderna e tradicional de um mundo em constante mudança. Se por um lado a TV diminuía o público do circo, por outro dava asas para Nelson Garcia, que aprendeu a consertar os aparelhos então futuristas, formando-se técnico em Rádio e Televisão e aproveitando sua habilidade plenamente desenvolvida em montar e desmontar seus outros engenhos: as bicicletas.

Outra amostra dessa capacidade se deu quando uniu a ancestral carreira de palhaço com uma atividade de vanguarda na década de 60: a de garoto propaganda, contratado pela Monark.RevistaFigurinha_capa

Igual know-how a Biografias & Profecias procura desenvolver em seus trabalhos biográficos ao fazer a ponte entre a memória e a contemporaneidade, seja de pessoas, famílias ou de empresas. Aliás, esta revista também vem para homenagear a família Garcia como um todo.

Revisitar o passado não é um exercício destinado a cultivar um saudosismo inócuo, mas sim a reavivar as fragrâncias das flores de nossos sentimentos ainda tenros, ainda brotos. Sim, esse pode ser o aroma do antigo, uma rosa perfumada de uma bela recordação. Assim, damos um passo para saber de onde viemos e quem somos, enquanto o “para onde vamos” vai se aproximando, sempre iminente e imanente.

“A alegria é o sinal pelo qual a vida marca o seu triunfo”
Alexis Carrel

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Lançamento – Paviloche 25 anos

Todo livro tem um sabor diferente. Mas se for para falarmos em termos literais, este no qual contamos a história da Paviloche – marca de sorvete localizada em Joiville, Santa Catarina – dá água na boca de qualquer um. É que além de todos os ingredientes que constroem uma história, como coragem, perseverança, acertos, erros, lições e união, o fio condutor desta narrativa são essas delícias geladas!

Seu Jair e dona Ivete Pavinato rumaram da confecção de linhas e lãs que aqueciam as pessoas no inverno para a fábrica e lojas de sorvete que nos refrescam no verão (bom, e no friozinho também, por que não?). Mudaram do Rio Grande do Sul para Santa Catarina, onde recomeçaram quando já tinham mais de 40 anos. Construíram uma marca de sucesso que, além de completar 25 anos em 2015, é honrada pelos filhos do casal, Douglas, Doriane, Diógenes e Diego.

Celebramos por ouvir e contar mais uma história que agora está eternizada em livro! Está garantida a perenidade de tantas passagens que trazem significado para as atuais e próximas gerações, além de resignificar para aqueles que a vivenciaram desde seus primeiros anos. Que o futuro continue sendo próspero e saboroso!

Paviloche 01

Abaixo, o prólogo do livro Paviloche 25 anos – Uma história de sabor, harmonia e felicidade:

“Era uma tarde quente qualquer no distrito de Ipiranga, na pequena cidade de Getúlio Vargas localizada no interior do Rio Grande do Sul. A correria da gurizada era daquelas que dispara o coração de tanta liberdade. O menino, por volta dos seus sete anos, repleto de entusiasmo, brincava com os amigos ao redor de um bar onde, nos finais do dia, depois da jornada de trabalho, agricultores locais se encontravam para jogar conversa fora e tomar um trago.

Após a brincadeira, os garotos suados, invariavelmente entravam no estabelecimento e pediam aos pais uma moeda para comprar um picolé feito pelo próprio dono do lugar. Embora os colegas rodopiassem ao seu redor, naquele dia, como em tantos outros, o menino estava só. Ao seu lado não havia nem seu pai e nem ninguém que lhe oferecesse a delícia gelada. Ele, apesar de tentado, também não pedia. Enquanto todos se refrescavam, chupando picolé, a ele – entre seus sentimentos e silêncio – restava apenas chupar o dedo.

A ingrata privação trouxe um amadurecimento precoce para o menino, mas de forma alguma lhe roubou a alegria. Ao contrário, trouxe a determinação em ser alguém na vida, alguém feliz! Ali, Jair fez um acordo consigo mesmo: “Quem pagará meu picolé serei eu”. E assim foi.”

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B&P na Universidade Mackenzie

Em setembro fomos surpreendidos com mais um delicioso convite: participar da Semana da Comunicação do Mackenzie. O tema do bate-papo com os alunos do curso não poderia ser mais apaixonante para nós: jornalismo e literatura. E a alegria se completou ainda mais quando soubemos quem seria nosso parceiro nesta discussão: Edvaldo Pereira Lima.

A composição veio expor um feliz vínculo: Edvaldo, referência no assunto, com uma trajetória e contribuição internacional em termos teóricos e práticos; e eu, que há dez anos me formei no Mackenzie e pude levar aos alunos de hoje mais um exemplo de atuação no mercado de jornalismo e produção literária.

Uma das fontes das quais bebemos é Jornalismo Literário, que carrega em suas bases as relações humanas e um texto que reverencia com respeito as histórias narradas pelos personagens que a vivenciaram – algo que a mídia convencional se esqueceu de praticar nas últimas décadas. Foi sobre a conduta e o papel do jornalista que Edvaldo iniciou sua exposição de ideias, levando um horizonte mais amplo aos jovens que sonham em trilhar uma trajetória na literatura de não ficção.

Foi um presente estar ao lado deste que habita as bibliografias dos cursos de jornalismo e que foi também um dos meus mestres na pós-graduação em Jornalismo Literário – de fato, uma das referências na forma de se escrever e na proposta de um fazer mais humanizado e ético para o leitor.

Assim, abordamos também o próprio trabalho da Biografias & Profecias, que atende ao desejo (necessidade) ancestral que o ser humano tem em narrar, compreender e anunciar para os outros sua história ou histórias que o inspiram. Com isso, levamos alguns dos nossos livros e compartilhamos trechos de nossos trabalhos.

Mais do que a satisfação diária que temos em eternizar memórias, esta tarde nos alimentou ainda mais com o prazer de compartilhar nossa experiência. Que novas gerações se despertem para esta prática ancestral que hoje tem todos os recursos para que se realize com arte e perenidade. À Universidade Mackenzie, minha gratidão por este privilégio!

Fred Linardi

Fred Linardi, Edvaldo Pereira Lima e Marcelo Lopes, professor de jornalismo do Mackenzie e mediador da conversa.

Fred Linardi, Edvaldo Pereira Lima e Marcelo Lopes, professor de jornalismo do Mackenzie e mediador da conversa.

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Aturdido – a vida que se vai e as palavras que ficam

tumblr_mm6iq5lHsP1ql5rm1o1_500 Por Fred Linardi

Eis que um querido conhecido diz para outra parceira e amiga do coração: este ano não foi dois mil e catorze, foi dois mil e catarse. E então eu assimilo que de fato o ano não deve ter sido difícil só para mim. É certo também que este tipo de afirmativa – que confere adjetivos não muito virtuosos ao ano que está acabando – é praticamente um lugar comum nessa época que precede as festas. Não raro ouvimos “esse ano precisa acabar”, ou “ano que vem vai ser melhor”.Bom, o desejo é de que sempre seja melhor, mas fecho esse ano com uma sensação de esgotamento após uma série de perdas que eu pessoas próximas de mim vivenciaram.

Assim o que vem com toda a força no meu peito neste momento é final do mês de agosto, quando o telefone tocou às quatro e meia da manhã e eu atendi temendo o esperado. Depois de pouco mais de um mês de internação, com graves problemas de saúde, meu pai não resistiu a uma infecção resultante de pneumonia. Para ele, no entanto, as coisas já não estavam bem desde o ano passado, quando após um susto, conseguiu retirar um tumor encontrado em seu intestino quase por acaso, mas na fase inicial e em tempo o suficiente para uma cirurgia bem-sucedida. Depois dela, o médico prometeu-lhe, poderia esquecer que um dia aquele tumor habitou seu corpo. Não havia nem mesmo mais vestígio dele.

Mas os vestígios ficam. Levamos vestígios de tudo o que vivemos. Lembranças que jamais queremos esquecer, assim como aquelas que tentamos apagar e, talvez por este esforço de esquecê-las, calcificam-se em nosso íntimo, causando outros vazios.

Mesmo sem sinais de câncer, meu velho sentia-se mais velho do que realmente era. Havia se passado apenas cinco anos que completara 60, mas ele – como um bom advogado – gostava das coisas oficiais, escritas no papel. E no papel, depois de completar essa idade, nos chamam de idosos, ou então de melhor idade. Não sei se de fato é a melhor, mas ao menos reservam as melhores vagas de estacionamento. Talvez este tenha sido o único privilégio usado pelo meu pai. De resto, ele determinou sua idade como uma sentença final, de fim de vida.

Achou que não iria superar aquela cirurgia. Fez uma reunião familiar comigo, meu irmão e minha mãe. Deu coordenadas burocráticas e espirituais. Concluiu dizendo que, se morresse, queria ser cremado. Perguntei-lhe então se havia feito planos se, por acaso, vivesse. Ele olhou para mim como que sem graça e acredito que tenha pensado: “de novo, lá vem o Fred com suas colocações…” Mas me olhou de uma maneira diferente e respondeu que tentaria viver melhor e se cuidar mais.

Só que teve dificuldades para isso. Poucos meses depois, caiu na calçada antes de entrar no carro, quebrando gravemente o cotovelo. Foi o início da série de complicações que renderia um extenso texto que não vem ao caso agora, quando relembro apenas o fato de que, aos 66, meu pai aceitou perder-se de si mesmo. Calcificou os vestígios da vida com mais eficiência do que seus ossos quando, numa outra queda, teve a bacia e duas vértebras fraturadas, obrigando-o a ficar muito tempo deitado e sofrendo por não poder fumar, enquanto uma pneumonia abreviou seu tempo.

O ano de intenso trabalho me jogou entre este tempo de luto enquanto eu me coloca a serviço do luto de uma família que havia procurado a Biografias & Profecias para um lindo projeto. No começo do ano, uma filha e um pai nos confiaram a história de sua esposa, que havia falecido em setembro do ano passado. Antes mesmo de seis meses do ocorrido, lá estávamos diante deles para que nos contassem as histórias que sua amada gostaria de ter deixado num livro de memórias, mas não teve tempo para isso devido à sua doença.

Depois de tantas entrevistas, eu escrevia o último capítulo do livro (e da vida desta protagonista), quando precisei elaborar meu próprio luto. O luto pela morte do meu pai. De uma hora para outra, a dor do outro se tornou também a minha, mesmo que cada um com sua própria história. Tentei transformar tudo em inspiração, sublimando o vazio da perda e transformando-o em criação. Preenchi com palavras.

E a busca por palavras me fez lembrar em aturdido.

Ainda no primeiro semestre, meu pai, desanimado pela depressão, ligava para mim quase todos os dias, mesmo sem muito a dizer. Eu sentia o constrangimento daquela solidão sintomática, neste desejo inalcançável de se comunicar. Muitas vezes, ele ligava e recorria “fala alguma coisa…” Às vezes eu lhe contava sobre meu dia, outras vezes, quando eu não tinha assunto, lhe respondia “fala você também, afinal foi você quem me ligou”. Esta última, algumas vezes me fez bater um arrependimento pela firmeza com a qual lhe retrucava. Então, comecei a pensar em formas diferentes de preencher o silêncio.

Até que teve uma tarde em que ele me ligou, ainda no primeiro semestre deste ano de 2014, quando eu estava no processo de escrita de um outro livro. O telefone tocou exatamente no momento em que eu pensava em sinônimos ou analogias para a palavra confuso. Então, quando ele me solicitou que eu contasse alguma coisa, comecei a falar sobre a história que eu estava escrevendo, desde o primeiro capítulo até aquele quinto, ainda em processo. E que eu buscava o tal sinônimo, evitando a repetição dos termos em parágrafos tão próximos. Depois de um ou dois palpites, ele veio com aturdido. Opa, essa era boa! Segui, então, os próximos parágrafos.

Meu pai encerrou sua vida antes da edição deste livro. Não chegou a vê-lo pronto. Pediu para eu lhe enviar o texto original, mesmo que ainda não finalizado, mas já não teve energia para ler. De qualquer forma, o mais importante estava feito e talvez tenha causado maior satisfação em mim do que nele: o dia em que eu, escritor, tentando romper o silêncio que vinha de meu pai, fui preenchido pela matéria-prima do meu trabalho. Por um instante, ele se tornou meu coautor.

Com sua morte, tenho revivido minha história e tentado relembrar mais sobre ele. Reconhecer seus valores novamente, agradecer pelo que jamais poderá ser retribuído, assim como redimi-lo daquilo que, arrogantemente, sempre julguei ser suas falhas – principalmente ao fato de ele ter quebrado a promessa de que se cuidaria mais.

Em novembro, cumprimos a nossa. Finalmente levamos suas cinzas para um lugar que lhe faria feliz. Plantamos uma árvore florida e regamos a primavera com ele. O último capítulo de sua vida encontrou então uma nova. E o silêncio do filho que perde o pai terá de encontrar outras vozes para ajudar a preencher as próximas páginas em branco.

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Lançamento do livro No caminho da precisão

O caminho até a conclusão de um livro é de muito trabalho e dedicação. Quando nos deparamos com o momento da festa de lançamento de uma obra escrita (Fred Linardi) e editada (Regina Magalhães e Rodrigo Casarin) por nós, somos tomados por uma grande alegria. Presenciamos também a emoção dos clientes, assim como daqueles que fizeram parte da história ou que assistiram mais de longe à trajetória que agora poderão conhecer melhor com a leitura do livro.

Ontem foi o dia de brindar com a Mectron, uma empresa de tecnologia que mostrou para nós um mundo tão desconhecido pelo público quanto controverso. Chamou-nos para contar sobre seus primeiros 20 anos. Foi uma das histórias mais inusitadas com a qual já nos deparamos, como mostram as palavras de Regina Rapacci Magalhães proferidas no evento ocorrido em São José dos Campos:

Boa noite.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer – em meu nome e em nome do meu sócio Fred Linardi, autor da obra – o convite por estar aqui.

Esta fala tem a ver com descobertas.

Quando o Salvador me chamou para uma conversa, a Mectron já estava noiva da Odebrecht e às vésperas dos seus primeiros 20 anos.

Vim curiosa e, por mais que negasse, trazia alguns preconceitos na bagagem. O que é que uma empresa que faz míssil queria falar com uma editora que eterniza memórias que inspiram histórias? O que de inspirador havia de existir no tema mísseis? Para minha surpresa, no hall de entrada estava a imagem do Cristo na Cruz e, nas paredes, ao lado da mesa, desenhos de crianças na sala.

Naquele dia, tive uma aula de cidadania com o Salvador. Como é que eu, uma mulher mais que formada, ainda não tinha parado para pensar na segurança nacional? Como até ali eu era tão alheia a essas questões?

Saí orgulhosa por entender que, apesar do nosso imenso território e apesar de nossa tendência a receber com pouco senso crítico o que vem de fora, eu poderia dormir sossegada porque, graças ao trabalho em harmonia, de militares e civis, governo e indústria, ninguém iria invadir o meu país. Ainda assim o tema se ligava à guerra. E guerra não é um assunto inspirador.

Muito bem. Viemos para uma segunda reunião. Explicamos o quanto seria importante para nós poder fazer ao longo do projeto, além das perguntas esperadas, também aquelas que pulsavam internamente. Por exemplo, tocar no assunto exportação. Toparam. E que o tema guerra também não fosse um tabu. Toparam. E então, mergulhamos de cabeça.

O mundo militar também foi uma novidade. Até então, nunca havíamos chegado tão perto. Mais do que patentes, encontramos homens brilhantes, comprometidos com um propósito, transbordando paixão e respeito com seus papéis, mesmo os que já estão na reserva. Assim igualmente sentimos com cada colaborador que encontramos ou entrevistamos.

Tamanha é a gentileza que pairava no ar, que uma vez o Fred, tentando definir a leveza e carisma das pessoas, resumiu suas impressões: “A Mectron tem uma atmosfera que poderia ser uma fábrica de chocolate!”.

Com todo seu potencial, importância e talento, como aquela empresa tinha tamanha simplicidade em seu DNA? Simplicidade de nobres. Mas, ainda estávamos em conflito.

Então, eu e o Fred, chamamos um filósofo para um papo. Por que ainda nos sentíamos assim? E foi aí que tudo ficou mais do que claro. Na condução da conversa, percebemos que o tema é sim polêmico. Mas a forma como estes fundadores o trataram, desde o início da empresa, sempre foi pelo amor à pesquisa, à Pátria, ao conhecimento, à tecnologia que dê sustentação para um desenvolvimento que não abrace apenas o que é mecânico. A Mectron também se preocupa com o desenvolvimento humano e que ele seja agraciado com tudo que derive desta tecnologia de precisão, produzida em solo nacional. Foram estes os sentimentos que levaram estes homens de alma empreendedora, superar as condições espartanas que muitas vezes tiveram de enfrentar, tendo sempre ao seu lado uma brava gente, um time de colaboradores fiéis, comungando forças a cada obstáculo, ainda que representassem significativos sacrifícios. Pois bem, o segredo de tudo isso estava na intenção destes cinco sócios, que não passava pelo simples desejo de poder.

E aí, olhando a complexidade do mundo, fomos preenchidos pela gratidão e orgulho do nosso país, da nossa inteligência, da nossa riqueza e de tudo que ainda vamos conquistar.

Então, alguém precisa sim pensar na segurança da nossa Nação, do nosso povo, na defesa de nossos interesses, na garantia de proteção.

Deste projeto, saímos mais brasileiros e mais responsáveis. Nisso tudo, qual o nosso papel como cidadãos? Essa é a pergunta que deixamos aberta aos leitores. Não devemos abrir mão de refletir, de participar e acompanhar decisões que, apesar de fugirem ao nosso cotidiano, são tão importantes quanto o mundo material e espiritual. Afinal, com este livro descobrimos que, entre esses dois mundos, o céu e a terra, existe a Soberania Nacional!

Ao nosso Brasil e à Mectron, agora com o sobrenome Odebrecht, um futuro de paz e prosperidade.

Obrigada.

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Início do primeiro capítulo:

Se alguém acreditava que as previsões de conflitos não seguiriam adiante, a realidade se impôs ao próprio cotidiano. A verdade estava diante do olhar de todos que observavam um movimento diferente nas ruas de Bagdá. Moradores da cidade saíram para fazer compras esvaziando as prateleiras do supermercado. O Edifício 9 do Conjunto al Salhia, assim como outros prédios da capital iraquiana, recebeu militares que instalaram baterias antiaéreas em seu telhado. Apesar das notícias, dos possíveis riscos de ataque, tudo indicava que a situação não era para pânico. A única certeza que tinham os brasileiros, russos, americanos, tailandeses, egípcios e outros estrangeiros que viviam no Iraque era de que o presidente Saddam Hussein havia decretado uma invasão ao pequeno Kuwait na madrugada do dia 2 de agosto. As primeiras consequências foram o embargo econômico internacional e o decreto da ONU para que estrangeiros deixassem o país assim que possível.

Mas o possível dependia das regras do governo socialista do ditador árabe. Como de praxe em vários países, todos os estrangeiros que permanecessem por mais de 30 dias no Iraque precisariam de um visto para deixar o território. Em possível zona de guerra, as regras não mudaram. Naquele segundo semestre de 1990, quando os jornais noticiavam para o mundo as possibilidades da Guerra do Golfo, jornalistas internacionais ficaram loucos para entrar em solo iraquiano e desempenhar seus trabalhos. Enquanto isso, milhares de estrangeiros que trabalhavam no país passaram a rezar, cada qual na sua fé, para conseguirem seus vistos de saída, o mais rápido possível, antes que a provável guerra se deflagrasse.

(…)

Como sempre, primamos tanto pelo conteúdo quanto pela “embalagem”. O projeto gráfico foi realizado em parceria com Marcelo Casalecchi e ilustrações de Nicolas Cares, integrantes da equipe da ArteMidia.

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Lançamento: Revista do Circo Navegador

Respeitáveis leitores,

É com grande alegria que anunciamos o primeiro trabalho que a Biografias & Profecias publica em 2013: Circo Navegador – uma história de prosa e verso.

Prestes a completar os seus 15 anos de existência, tivemos contato com o Circo Navegador através de Luciano Draetta, um de seus integrantes e idealizadores. Ao ver nossas obras anteriores e conhecer o nosso jeito de trabalhar, Draetta ficou interessado em registrar a memória do Circo Navegador conosco! Sugeriu que fizéssemos algo mais sucinto que um livro. Bastava uma revista, que representasse a alegria da celebração e o compartilhamento deste orgulho com seu público, que poderia lê-la após sair de suas apresentações.

O prazer para a Biografias & Profecias foi do tamanho do maior espetáculo da Terra! E o desafio foi quase igual ao do globo da morte! Como escrever tantas histórias dentro de uma pequena revista? Então, a gente aprendeu com o próprio circo, que consegue transmitir sua essência, emoção e alegria sob as maiores lonas e holofotes ou na menor das pracinhas da cidade, de baixo de chuva.

Regina Magalhães aprendeu a arte do picadeiro na prática, frequentando as aulas de Yoga e Circo oferecidas por eles. Empolgadíssimo com o projeto, o autor Fred Linardi, que estuda o mundo dos palhaços há alguns anos, mal acreditava no que caíra em suas mãos. Ao ficar mais próximo dessa história, soltou a escrita e narrou as memórias deste circo misturando prosa e verso. O texto caiu nas mãos de Davi Elia, que fez uma diagramação arrebatadora!

Para quem quiser conferir, o Circo Navegador disponibilizou todo o conteúdo em seu site, onde também é possível fazer o pedido para receber a revista impressa na sua casa!

Download da revista completa em:
http://www.circonavegador.com.br/downloads/

 

Capa da revista.

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Lançamento do livro De Sonhos e Obras

Novo livro da Biografias & Profecias conta a história dos 25 anos da construtora Teixeira Pinto.  

Concluir um livro e compartilhar este trabalho com os protagonistas da história e com seus leitores é sempre um momento muito especial. É quando a nossa missão se conclui, depois de meses em que nossa equipe fica imersa nas entrevistas, cenários e pesquisas relacionadas à história que o cliente deseja eternizar.

A noite de 13 de novembro foi um desses momentos, quando para nós da Biografias & Profecias vem a sensação de dever cumprido e a expectativa de que o que está escrito inspire mais e mais jornadas para quem as ler hoje, amanhã ou daqui a muito tempo.

Pensando na celebração de seus 25 anos, a Construtora Teixeira Pinto, da cidade de Taubaté, nos chamou para mergulharmos em sua memória.

Foram meses conversando com os f undadores, parceiros de longa data, colaboradores do escritório e das obras. Do financeiro à engenharia; do escritório ao canteiro… É muita história para contar! Ouvimos com cuidado e respeito e transformamos em literatura no livro De sonhos e obras.

Fred Linardi, autor do livro, e Regina Magalhães, editora, celebram o lançamento em noite de grande festa no Museu Mazzaropi, em Taubaté.

Abertura do evento com participação de Roberto Tranjan, seguida das palavras dos colaboradores e fundadores da Teixeira Pinto.

Início do primeiro capítulo:

Embasar

Ao amanhecer, em Taubaté, o silêncio é quebrado. Num terreno, entram máquinas, ferramentas e peças pesadas. O solo, liso e inerte, aguarda prontamente para ser perfurado. Em troca, levanta a poeira que preenche o espaço, a vista e a respiração. É a resposta por ter sido despertada a grossa camada de chão duro e adormecido. É preciso força para ganhar a luta que será travada superfície abaixo. Tudo começa com o fim da mansidão.

Os engenheiros têm a atenção voltada aos veículos que chegam, parecidos com tratores. O sol bate forte sobre os capacetes. Técnicos confirmam os dados colhidos na fase de estudos do solo. A partir de hoje, este espaço será um cenário para a coletividade.

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Um dia e meio em Arles

Por Fred Linardi

Arles, cidade provençal. Não precisaria de mais delongas para entender que vale ser visitada. Simplesmente por ter um centro de casas, prédios e monumentos que datam de diversos séculos, inclusive anteriores ao nascimento de Cristo. Traços particulares de vilas da Provença, que fazem qualquer coração turrão se amolecer em dez passos entre as vielas e casas de pedras com portas e janelas de madeira.

Mas Arles não atrai os turistas apenas por conta disso. Banhada pelo Rio Rhône, foi uma importante cidade do império romano, como denunciam as ruínas do anfiteatro – uma versão menor do famoso coliseu de Roma – e um teatro feito ainda no primeiro século da nossa era. Com a Idade Média, foi um ponto importante para a Igreja, que construiu seus templos góticos, cláustros e muros com as mesmas pedras retiradas dos prédios acima mencionados.

E assim se constrói e reconstrói a história da Europa. Antes de desbravar os mares e dominar outros povos, ela nos mostra hoje que viveu o mesmo jogo de domínio e dominação. Destruição, reconstrução e transformações. Assim como a borrada Arles já do século 19 dos quadros de Vincent van Gogh e que hoje faz com que milhares de turistas desembarquem dos ônibus e dos trens que cortam as plantações até chegar aqui.

Desci da estação do trem que nos trouxe de Avignon pouco depois do meio-dia. Renata e eu já havíamos passado pouco mais de um dia naquela cidade que no século 13 foi sede temporária do catolicismo no lugar do Vaticano, e ponto de partida para nossa lua de mel. Apesar de um pouco grande, julgamos tê-la conhecido bem. Visitamos o próprio Palácio dos Papas e seu jardim; a Ponte de Avignon, semi-demolida pelas intempéries do homem e das águas do rio; fomos ao museu, à prefeitura, à roda-gigante que nos presenteia com uma vista panorâmica da cidade murada; e andamos pela margem do rio.

Imaginamos que Arles seria muito mais fácil. Cerca de quatro vezes menor, teríamos tempo de folga para explorá-la. Dentre suas atrações como as ruínas romanas, as criptas e igrejas, era mesmo o universo de van Gogh que me fizera procurar no mapa os principais pontos. Para começar, a ponte inglesa, que na ingenuidade do turista (ou burrice, quando vista dos olhos dos nativos), nos fez caminhar quase uma hora debaixo do sol para descobrirmos que tal distância exigia mais do que dois pares de tênis e pés determinados.

Mas ainda faltava o cemitério romano Alyscamps, a margem do rio da Noite estrelada, a fachada do café de Noite em Arles, o local onde era a Casa Amarela… Além dos próprios pontos históricos! A tarde se esgotava junto com os tornozelos e os nervos. Ou reservávamos o dia seguinte para tentar a ponte novamente, nos juntando a algum ônibus turístico, ou tentávamos andar pelas atrações mais próximas. Assim, teríamos menos de Arles, mas com mais energia e tranquilidade.

O fim da tarde do primeiro dia se anunciava, apesar do azul do céu não transparecer que já se aproximava das sete da noite (em junho, o sol se despede da Provence quase às dez da noite). Renata foi se recompor no hotel antes de sairmos novamente para jantar. Enquanto isso, planejei dar uma volta pelas vielas, fazendo um caminho mais tortuoso até o hotel. Foi então que passei a conhecer Arles de maneira que o mapa não mostrava.

Contornei o anfiteatro por fora, olhando para as casa que o encaram timidamente. Escolhi em qual das vielas seguiria meu caminho. Entre prestar atenção onde pisava – à procura de uma estreita calçada de granito ou de pedra qualquer -, ou olhar para cima vendo a arquitetura das antigas casas, fui pego pelo olfato. O ar emanava o cheiro de flor típico de floriculturas. Olhei ao redor para ver se vinha de alguma loja ou algum vendedor ambulante. Não encontrei nada além das casas, com suas janelas coloridas e flores nas jardineiras. Elegi que aquele era o cheiro de Arles, ao menos naquele momento. Ao menos para mim. O céu azul como visto nos quadros impressionistas era testemunha, sem uma nuvem sequer. O som poderia variar. Ora uma sanfona de um músico de rua, ora do francês elegante que, ao contrário da fama, sorri com gentileza.

As janelas me capturaram. Tornaram-se as protagonistas daquele trajeto. Eram elas que ficavam entre as ruas estreitas e o céu aberto. Era delas que vinha o perfume das flores. Estavam abertas em pose para dezenas de fotos.

Cada canto que barrava a brisa vinda do Rhône, cada pedra oportunamente no meio do caminho, a cor amarela das paredes das casas que amparam os lampiões da iluminação pública – tudo compunha essa cidade conhecida como a Itália na França. No dia seguinte, esse foi o cenário para destinos turísticos como o Alyscamps, que guarda uma parte ínfima do cemitério mais importante fora de Roma durante seu forte império. Também para encontrar os outros pontos pintados nas telas de van Gogh (com exceção da fatídica ponte, que fica para a próxima visita).

Curioso notar que, em pleno sábado, todos esses lugares não recebiam um turista sequer. A vida estava fora dos templos romanos, católicos e museus de arte. Ela pulsava nos cafés e restaurantes que brotam em todos os quarteirões, nos cantos mais improváveis de uma ruazinha com cara de abandonada. Com suas mesas dispostas nas calçadas, estão sempre ocupados.

A feira de rua chegou para avivar ainda mais a cidade e seus moradores. Morangos, cerejas, framboesas, tomates, melancias, laranjas, pêras e pêssegos. Queijos dos mais variados nomes impronunciáveis. Belas garrafas de vinho, azeite e vinagre. Potes de geléia de morango, amora, laranja, damasco e mais potes de temperos e patês. De pesto vermelho; pesto verde; alcachofra com alho; azeitona; fois gras. Na banca de pães, a baguete é a primeira que acaba. Sobram outros tipos mais espaçosos e excêntricos. O vendedor dos doces tem o pão com chocolate. Alguns passos adiante, compotas de frutas e o sofisticado creme brulé.

Estávamos voltando do vazio Alyscamps quando entramos nesta irresistível feira provençal. Vivenciamos a diferença das legendas de um guia do mapa turístico para um pouco, mesmo que muito pouco, da vida local. O melhor a fazer era planejar naquela mesma feira o nosso almoço. Pães, queijo, tomate, azeite e azeitona bastavam para nosso piquenique à beira do rio. De sobremesa, cereja, morango e framboesa. Para finalizar, pão com chocolate. A degustação disso tudo dependeria também no nosso poder de abstração, já que é verdade que os vendedores usam a mesma mão e o mesmo balcão para receber o dinheiro e apoiar o alimento. Mesmo os pães e os queijos, impossíveis de se lavar. O lanche ficou ótimo.

Em um dia e meio, fomos pegos pelo sol, cores e cheiros de um lugar que atraiu romanos, medievais e almas inquietas como van Gogh e Paul Gauguin. A pequena cidade é imensa em sua cultura que está além do que os olhos veem. Não há regras ou tempo determinado para conhecê-la. Com sua sutileza e sob um sol árduo, Arles sussurra: não me subestime.

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O palhaço humaninho

Por Rodrigo Casarin

O ano é 2009 e Frederico Linardi trabalha incessantemente. Escreve todo mês para até cinco revistas, duas vezes por semana transforma-se em assessor de imprensa,  em outro dia, auxilia em toda a comunicação de uma clínica médica. Aproveita cada brecha no relógio para resolver algo. É um homem sério e super atarefado, como manda a cartilha. Trabalha, trabalha, trabalha. O semblante de tragédia que possui quando chega em casa até desanima a bailarina Renata, sua esposa, mas não há tempo para se recompor. Precisa trabalhar mais, trabalhar, trabalhar. Ainda faz cursa francês, isso quando não falta à aula para trabalhar um pouco mais. Passa meses sem conseguir terminar de ler sequer um livro, não tem tempo para tal luxo. Contudo, ao olhar a conta bancária, a recompensa. Nunca ganhara tanto dinheiro na vida. E o melhor, pouco gasta. Não tem tempo para isso também. Enquanto Frederico acumula números no banco, distancia-se de tudo o que mais gosta, afasta-se de si mesmo.

Fred mudara-se de Americana para São Paulo para cursar Jornalismo em 2001 e, depois do choque inicial, habituou-se à cidade. Anos depois, da janela de seu apartamento conheceu a bailarina Renata. Ambos trocavam olhares, até que um dia o garoto resolveu interfonar para a menina que admirava do outro bloco. Combinaram um cinema. Combinaram de namorar. Combinaram de morar junto. E hoje combinam de casar em junho.

As obrigações com a casa, com a vida e a pressão por não desperdiçar oportunidades fizeram com que Fred acabasse virando um refém do trabalho. Não queria isso e decidira que o ano de 2010 seria diferente. Trabalharia menos e faria mais coisas que lhe dessem prazer. Levou o francês mais a sério e resolveu fazer um workshop de palhaços com o grupo Jogando no Quintal.

Desde a infância, o rapaz já admirava os artistas pintados que arrancavam gargalhadas de toda a plateia presente no circo – uma das raras e efêmeras opções de lazer em uma cidade de interior. Também gostava de assistir a peças de teatro e filmes com palhaços, mesmo os que não se vestiam como tal, mas tinham a essência desta figura. Afinal, como não considerar Charles Chaplin um grande palhaço?

A realização do workshop fez com que Fred percebesse que poderia vencer a sua timidez, marca que só não lhe é latente porque é tímido demais para transparecê-la, e levar a palhaçada a sério. Agradava-lhe a maneira que o grupo realizava as brincadeiras. Nada de clássicos como torta na cara ou escorregões em cascas de banana, tudo acontecia – e ainda acontece – na base do improviso, criando piadas em cima de temas sugeridos por alguma pessoa, normalmente da plateia. Gostou da experiência e resolveu fazer um outro workshop que e mesma companhia ofereceu no mês seguinte, com a palhaça Gabriella Argento. Um novo curso se formou e seguiu ao longo de dois anos. Agora, em 2012, essa turma que se manteve unida desde então resolveu se tornar um grupo. O nome? Humaninhos.

Quando está em cena com os Humaninhos, Fred incorpora Pacífico, um palhaço que parece deslocado entre seus pares, não é muito de rir, é crítico, gosta de algumas travessuras nojentas, adora cantar e brinca até com o nascimento de Jesus Cristo. Fred encontra na prosa do escritor uruguaio Eduardo Galeano, no texto Humaninhos*, uma das melhores maneiras de descrever Pacífico, que, mais do que personagem, é uma parte do seu próprio criador.

“Um palhaço se cria com aquilo que está dentro de você, expondo as suas sombras, enxergando os seus problemas e brincando com eles, chegando na essência dos dramas, transformando as tragédias em festas. Ele é  tudo aquilo que os pais ensinam os filhos a esconder. O palhaço é um ser totalmente autobiográfico, pois é feito em cima da história de vida do seu criador. Vestimos a menor máscara – o nariz – para tirarmos todas as outras”, explica Fred. Essa exposição do eu de quem interpreta o palhaço faz com que o próprio ator tenha que criar uma casca para não se machucar. Se Pacífico fizer alguma graça sem graça em cima dos palcos, é de Fred que as pessoas vão rir e debochar pela incompetência em se construir a piada. O palhaço é um ser sem orgulho ou preocupação, sem passado ou futuro. Vive apenas o momento. Pode sair da tristeza de um funeral para a alegria de um carnaval em questão de segundos. Uma ação leva a outra, sem qualquer tipo de julgamento. Um palhaço apenas não vive sem a plateia e seus parceiros, elementos essenciais para que a encenação se sustente.

Trabalhando menos e tendo mais tempo para se dedicar a tudo o que gosta de fazer, no final de 2011 chegou o momento de Fred e Pacífico estrearem nos palcos de um teatro. Para quem odiava se apresentar até para os parceiros de grupo, aquele era um grande desafio. No dia da apresentação, a clássica vontade de ir ao banheiro apareceu também para Fred, que viu a sua garganta secar e pensou diversas vezes em que grande burrada havia feito ao aceitar o convite para tamanha exposição. “Ali não é o seu lugar, não devia ter chamado meus pais, porque fiz isso…”, pensava. Contudo, mesmo assim foi em frente e, ao sair aplaudido do palco, experimentou uma das melhores sensações de sua vida.

Atualmente, Fred toca a vida em um ritmo que lhe possibilita ter os seus prazeres, mas ainda não está plenamente satisfeito. Sonha um dia em sair com um circo pela estrada, rodando cidades e mais cidades do interior do Brasil e contar essa história. Quem sabe até levar Pacífico para conhecer os confins do país e ser conhecido por crianças e adultos dos mais diferentes lugares. Sonha em ir, mas também sonha em voltar. E, quando voltar, estará a bailarina à janela esperando pelo palhaço.

*Humaninhos (Eduardo Galeano)

Darwin nos informou que somos primos dos macacos, e não dos anjos. Depois, ficamos sabendo que vínhamos da selva africana e que nenhuma cegonha nos tinha trazido de Paris. E não faz muito tempo ficamos sabendo que nossos genes são quase iguaizinhos aos genes dos ratos.

Já não sabemos se somos obras-primas de Deus ou piadas do Diabo. Nós, os humaninhos:

os exterminadores de tudo,

os caçadores do próximo,

os criadores da bomba atômica, da bomba de hidrogênio e da bomba de nêutrons, que é a mais saudável de todas porque liquida as pessoas, mas deixa as coisas intactas.

os únicos animais que inventam máquinas,

os únicos que vivem ao serviço das máquinas que inventam,

os únicos que devoram sua casa,

os únicos que envenenam a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer,

os únicos capazes de alugar-se ou se vender ou de alugar ou vender os seus semelhantes,

os únicos que matam por prazer,

os únicos que torturam,

os únicos que violam.

E também
os únicos que riem,

os únicos que sonham acordados,

os únicos que fazem seda da baba dos vermes,

os que convertem lixo em beleza,

os que descobrem cores que o arco-íris desconhece,

os que dão novas músicas às vozes do mundo

e criam palavras, para que não sejam mudas

nem a realidade nem sua memória.

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