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Um dia e meio em Arles

Por Fred Linardi

Arles, cidade provençal. Não precisaria de mais delongas para entender que vale ser visitada. Simplesmente por ter um centro de casas, prédios e monumentos que datam de diversos séculos, inclusive anteriores ao nascimento de Cristo. Traços particulares de vilas da Provença, que fazem qualquer coração turrão se amolecer em dez passos entre as vielas e casas de pedras com portas e janelas de madeira.

Mas Arles não atrai os turistas apenas por conta disso. Banhada pelo Rio Rhône, foi uma importante cidade do império romano, como denunciam as ruínas do anfiteatro – uma versão menor do famoso coliseu de Roma – e um teatro feito ainda no primeiro século da nossa era. Com a Idade Média, foi um ponto importante para a Igreja, que construiu seus templos góticos, cláustros e muros com as mesmas pedras retiradas dos prédios acima mencionados.

E assim se constrói e reconstrói a história da Europa. Antes de desbravar os mares e dominar outros povos, ela nos mostra hoje que viveu o mesmo jogo de domínio e dominação. Destruição, reconstrução e transformações. Assim como a borrada Arles já do século 19 dos quadros de Vincent van Gogh e que hoje faz com que milhares de turistas desembarquem dos ônibus e dos trens que cortam as plantações até chegar aqui.

Desci da estação do trem que nos trouxe de Avignon pouco depois do meio-dia. Renata e eu já havíamos passado pouco mais de um dia naquela cidade que no século 13 foi sede temporária do catolicismo no lugar do Vaticano, e ponto de partida para nossa lua de mel. Apesar de um pouco grande, julgamos tê-la conhecido bem. Visitamos o próprio Palácio dos Papas e seu jardim; a Ponte de Avignon, semi-demolida pelas intempéries do homem e das águas do rio; fomos ao museu, à prefeitura, à roda-gigante que nos presenteia com uma vista panorâmica da cidade murada; e andamos pela margem do rio.

Imaginamos que Arles seria muito mais fácil. Cerca de quatro vezes menor, teríamos tempo de folga para explorá-la. Dentre suas atrações como as ruínas romanas, as criptas e igrejas, era mesmo o universo de van Gogh que me fizera procurar no mapa os principais pontos. Para começar, a ponte inglesa, que na ingenuidade do turista (ou burrice, quando vista dos olhos dos nativos), nos fez caminhar quase uma hora debaixo do sol para descobrirmos que tal distância exigia mais do que dois pares de tênis e pés determinados.

Mas ainda faltava o cemitério romano Alyscamps, a margem do rio da Noite estrelada, a fachada do café de Noite em Arles, o local onde era a Casa Amarela… Além dos próprios pontos históricos! A tarde se esgotava junto com os tornozelos e os nervos. Ou reservávamos o dia seguinte para tentar a ponte novamente, nos juntando a algum ônibus turístico, ou tentávamos andar pelas atrações mais próximas. Assim, teríamos menos de Arles, mas com mais energia e tranquilidade.

O fim da tarde do primeiro dia se anunciava, apesar do azul do céu não transparecer que já se aproximava das sete da noite (em junho, o sol se despede da Provence quase às dez da noite). Renata foi se recompor no hotel antes de sairmos novamente para jantar. Enquanto isso, planejei dar uma volta pelas vielas, fazendo um caminho mais tortuoso até o hotel. Foi então que passei a conhecer Arles de maneira que o mapa não mostrava.

Contornei o anfiteatro por fora, olhando para as casa que o encaram timidamente. Escolhi em qual das vielas seguiria meu caminho. Entre prestar atenção onde pisava – à procura de uma estreita calçada de granito ou de pedra qualquer -, ou olhar para cima vendo a arquitetura das antigas casas, fui pego pelo olfato. O ar emanava o cheiro de flor típico de floriculturas. Olhei ao redor para ver se vinha de alguma loja ou algum vendedor ambulante. Não encontrei nada além das casas, com suas janelas coloridas e flores nas jardineiras. Elegi que aquele era o cheiro de Arles, ao menos naquele momento. Ao menos para mim. O céu azul como visto nos quadros impressionistas era testemunha, sem uma nuvem sequer. O som poderia variar. Ora uma sanfona de um músico de rua, ora do francês elegante que, ao contrário da fama, sorri com gentileza.

As janelas me capturaram. Tornaram-se as protagonistas daquele trajeto. Eram elas que ficavam entre as ruas estreitas e o céu aberto. Era delas que vinha o perfume das flores. Estavam abertas em pose para dezenas de fotos.

Cada canto que barrava a brisa vinda do Rhône, cada pedra oportunamente no meio do caminho, a cor amarela das paredes das casas que amparam os lampiões da iluminação pública – tudo compunha essa cidade conhecida como a Itália na França. No dia seguinte, esse foi o cenário para destinos turísticos como o Alyscamps, que guarda uma parte ínfima do cemitério mais importante fora de Roma durante seu forte império. Também para encontrar os outros pontos pintados nas telas de van Gogh (com exceção da fatídica ponte, que fica para a próxima visita).

Curioso notar que, em pleno sábado, todos esses lugares não recebiam um turista sequer. A vida estava fora dos templos romanos, católicos e museus de arte. Ela pulsava nos cafés e restaurantes que brotam em todos os quarteirões, nos cantos mais improváveis de uma ruazinha com cara de abandonada. Com suas mesas dispostas nas calçadas, estão sempre ocupados.

A feira de rua chegou para avivar ainda mais a cidade e seus moradores. Morangos, cerejas, framboesas, tomates, melancias, laranjas, pêras e pêssegos. Queijos dos mais variados nomes impronunciáveis. Belas garrafas de vinho, azeite e vinagre. Potes de geléia de morango, amora, laranja, damasco e mais potes de temperos e patês. De pesto vermelho; pesto verde; alcachofra com alho; azeitona; fois gras. Na banca de pães, a baguete é a primeira que acaba. Sobram outros tipos mais espaçosos e excêntricos. O vendedor dos doces tem o pão com chocolate. Alguns passos adiante, compotas de frutas e o sofisticado creme brulé.

Estávamos voltando do vazio Alyscamps quando entramos nesta irresistível feira provençal. Vivenciamos a diferença das legendas de um guia do mapa turístico para um pouco, mesmo que muito pouco, da vida local. O melhor a fazer era planejar naquela mesma feira o nosso almoço. Pães, queijo, tomate, azeite e azeitona bastavam para nosso piquenique à beira do rio. De sobremesa, cereja, morango e framboesa. Para finalizar, pão com chocolate. A degustação disso tudo dependeria também no nosso poder de abstração, já que é verdade que os vendedores usam a mesma mão e o mesmo balcão para receber o dinheiro e apoiar o alimento. Mesmo os pães e os queijos, impossíveis de se lavar. O lanche ficou ótimo.

Em um dia e meio, fomos pegos pelo sol, cores e cheiros de um lugar que atraiu romanos, medievais e almas inquietas como van Gogh e Paul Gauguin. A pequena cidade é imensa em sua cultura que está além do que os olhos veem. Não há regras ou tempo determinado para conhecê-la. Com sua sutileza e sob um sol árduo, Arles sussurra: não me subestime.

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