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O nascimento do Conto Biográfico

Eis que hoje vamos contar um pouco sobre nós mesmos…

Em 2012, durante umas das reuniões da equipe da Biografias & Profecias, começamos a pensar em maneiras de contar sobre a vida de alguém sem necessariamente abarcar toda a sua trajetória. Se a vida é feita por um conjunto de episódios, por que não contar sobre apenas um deles caso seja este o desejo de quem nos chama para escrever?

Foi então que refletimos por alguns dias tentando chegar a um nome para este produto. Foram várias sugestões, entre elas “bonsai”, já que se tratava de uma ideia de completude, mas num tamanho compacto. Só que não se encaixava muito bem. Primeiro, porque o nosso símbolo, essa arvorezinha do logo, já é um bonsai – cuja simbologia representa o nosso trabalho: uma vida cultivada ao longo de diversas gerações com intuito de durar um tempo imensurável, cumprindo o papel de um legado às gerações seguintes. O bonsai representa também uma vida toda – das raízes aos frutos – com toda a sua riqueza e que é possível pegar com as mãos.

Então, quando pensamos nas diferenças entre um livro que contasse uma vida inteira e outro que falasse sobre um episódio (um casamento, uma viagem, entre outros momentos), partimos da comparação de que um livro maior estava mais próximo de um romance (em termos de tamanho), assim como a história de um episódio se assemelhava à extensão de um conto.

Eureca! Tínhamos criado o nome para nosso próximo “filho” – O CONTO BIOGRÁFICO!

Sim, este é um termo que já existia antes, em outro contexto. No meio literário é comum haver a classificação de romance biográfico, caracterizado por uma longa história baseada na vida de um personagem real. Neste caso, tempera-se a narrativa com algumas pitadas fictícias. Da mesma maneira, se o escritor cria um conto baseado numa vida real, este é chamado de conto biográfico.

Diferente disso, o termo que encontramos para batizar nosso produto vinha de uma mera questão de tamanho, uma maneira simples para que nossos clientes entendessem as diferentes dimensões de conteúdo.

Logo naquele ano fizemos o primeiro Conto Biográfico na história da BP (este é nosso apelido entre nós – nossa abreviação), sobre o casamento da Renata e do Fred. Além da história deles, o livro conta com elementos visuais que remetem ao casal, assim como fotos e registros de imagens.

Hoje comemoramos o sucesso do formato, não só pela satisfação dos clientes e de seus presenteados, mas ao constatar que temos servido de inspiração para outros profissionais do ramo, inclusive sabendo que o nome de um produto nosso está se tornando, na verdade, um conceito.

Se um dos lemas da BP é inspirar, estamos conquistando muito mais do que esperávamos.

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Se te conheço, eu me reconheço

Por Silvia Noara Paladino

No café em que conversamos, próximo à Avenida Paulista, chamo a atenção de minha xará para o quadro logo acima de nossas poltronas. Ele revela uma foto em preto e branco, de uma calçada qualquer, por onde alguém deve transitar rotineiramente a caminho do trabalho, pensando na vida. Junto à imagem, uma frase em inglês. Na tradução: “Todos nós precisamos de um tempo para nós mesmos – apenas alguns minutos por dia, para nos familiarizar novamente com aquele que tem estado lá desde o início”. Ela gosta do que lê, e se lembra do que não deve se esquecer, mesmo nesses dias tão corridos.

O fato é que, mesmo que o tempo consiga fintá-la, Sylvia Beatrix pode olhar para si mesma através de Tiago, o filho de 14 anos. Não dá para saber se há mais dela gravado nele ou mais dele transmitido a ela, mas, quando de frente um para o outro, é como um espelho. Ambos escorpianos, teriam nascido, naturalmente, na mesma data, não fosse a opção da mãe pelo agendamento do parto cesariano e a decisão de não embolar as coisas. Ela nasceu em 15 de novembro; ele, um pouco antes, no dia 9.

Depois de uma temporada recente de dois anos e meio na casa do pai, o novo adolescente voltou a morar com Sylvia, na fase em que ela define como aquela de rejeição à figura da mãe. Por isso, não leva a sério qualquer bobagem que sai pela boca do filho. Após uma frase torta ou resistência que acaba em briga, logo inventam um lanche na cozinha para se reaproximarem. Afinal, ela o compreende mais do que ele mesmo pode entender sobre si próprio. São iguais, até nas diferenças que esculpem a individualidade tão particular de Tiago.

Se Tiago representa a tempestade, Camilla, por sua vez, é a calmaria. É assim desde que foi concebida. A gravidez e o parto da primeira filha foram tranquilos, bem como tudo o que veio depois. À noite, não acordava nem para mamar ou trocar a fralda. Pela manhã, quando entrava no quarto da bebê, lá estava ela, serena e despreocupada. A garotinha já contagiava a mãe com bom humor e paciência. E à Camilla, ela atribui a descoberta de um amor involuntário, sólido e perene.

Na sala de parto, a nova mamãe não teve tempo de perceber o que acabara de acontecer. Quando a enfermeira se aproximou com a bebê no colo, por alguns instantes, Sylvia reparou em apenas duas coisas: a boca no formato de coração, que Camilla tem até hoje, e as mãos, tão iguais às suas, com as unhas quadradas. Ela sabia que, com essas poucas pistas, seria capaz de reconhecer a filha imediatamente. Quando a pequena foi levada ao quarto e Sylvia a segurou nos braços, o mundo já não era mais o mesmo. Ela explica o sentimento que a tomou com um choro impulsivo, que bate com força no peito, e o bloqueio das palavras. E basta.

Não dá para revelar a Sylvia sem falar sobre os seus filhos. Não porque ela tenha a presunção de pertencê-los ou a visão limitada de que a vida se resuma a eles. Não. Ela se satisfaz com o papel de ser apenas o canal para que os filhos viessem ao mundo. Isso é o suficiente para justificar tudo o que faz para eles, pois o faz por si mesma. Os filhos são o seu veículo de evolução. E não tem essa de comercial de Margarina. A família funciona como o chão em que pisa, com todas as imperfeições e tropeços intrínsecos às relações humanas.

Espontânea e autêntica, Sylvia é a mãe que arrasta os filhos para espetáculos, shows, exposições. Custe o que custar, Camilla e Tiago terão cultura. Disso não abre mão. Também não adianta tentar convencê-la sobre a ditadura da beleza. Ela não vai tingir os cabelos. Quer permitir que os fios brancos e o tempo gravem as marcas que bem entenderem. Afinal, para que mudar o que a natureza decidiu? Ela fala com segurança, propriedade, e parece avaliar a todo o tempo se está sendo claro, se usou a palavra correta, se o discurso tem coerência e continuidade. Como um roteiro não planejado previamente, mas que se compõe fácil e bonito de se ouvir.

Como educadora de si mesma, dos filhos e de qualquer pessoa motivada a trocar experiência e conhecimento, ela respeita a palavra. A palavra e o indivíduo. Como voluntária, trabalha no Instituto Fazendo Minha História, que incentiva crianças moradoras de abrigos a contar e registrar o seu passado, para que se lembrem de onde vêm e que são protagonistas dessa história. Porque dividir a dor com alegria, sem julgamento, é humano. E o humano a encanta. Ela narra a vida real, e como narra bem! Aos 50 anos, Sylvia pensa em escrever um livro. A gente só fica aqui, torcendo.

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Quando entrar setembro

Por Sylvia Beatrix Pereira

Na próxima “encadernação” quero nascer vaca leiteira e só parir bezerra!

Um sorriso se abre em flor me convidando a conhecer seu jardim logo depois de me fazer rir com esta frase.  É a primeira pessoa que conheço apaixonada por vacas. Tem uma coleção delas em pelúcia, pijamas estampados, bules, xícaras, açucareiros. “Elas são tão lindas!”.

Estou no Centro Paulus, em Parelheiros, setembro de 2010, no meio do nada de acordo com o GPS do carro. No extremo sul da cidade de São Paulo, bugios, borboletas e vagalumes são ouvintes curiosos. Guapuruvus, orquídeas, palmeiras, bromélias e raros espécimes de pau-brasil me cercam e acolhem. As buzinas, o cinza e a pressa, não tem permissão para entrar neste santuário. O tempo nos brinda com sua presença. Tenho uma xícara de chá nas mãos e a companhia de Regina. Acomodadas, ganho novo sorriso.

Aparentemente estamos só nós duas. Engano. Regina é uma trupe e seu nome, majestoso: Regina Marta Valeria Puccinelli Rapacci Kirst Magalhães. Ufa!

A prosa que iniciamos é boa, tem formato de poesia. Isso é muito novo para mim, sou concreta e linear; Regina, abstrata e curvilínea. Um passeio! A pessoa que está diante de mim com seus olhos castanhos, cabelos curtos e vivacidade de moleca, lapida o que vai dizer com apreço e cuidado. Tem por ofício as palavras e como dom, a escuta. Ela faz com que perto dela eu me sinta em casa.

Regina passa seus dias entre os santos, percorrendo a Rodovia Tamoios, colhendo relatos de vida, experiências que serão compartilhadas e memórias que serão eternizadas para escrever livros e semear aprendizados. Tarefa hercúlea para qualquer um, ainda mais se for casado. “Muitas vezes tomo café da manhã em São Sebastião, almoço em São José dos Campos e termino o dia em São Paulo”. Isto só é possível pois tem como parceiro de vida o Alex e como fiel escudeira Meg, a labradora. Eles são as raízes de sua vitalidade e o apoio para construir seus sonhos. Despedir-se é sempre difícil, não raro com lágrimas. Seus amores, a casa e a brisa do mar ficam à espera do novo reencontro. Assim como ela.

A xícara de chá ainda não terminou e sinto como se fôssemos amigas de infância. Em nosso bate papo, descobrimos que acreditamos em caminhos e pessoas e apresentamos, uma à outra, frações de nosso passado. “Cada um de nós é o herói de sua própria jornada e toda história merece ser contada. Essa é a minha inspiração”. E como ela faz isso bem! A começar pelas histórias de sua família, onde consegue misturar dor com humor, pitadas de carinho e doçura, colheradas de respeito e admiração e a dose certa de sofrimento e aprendizado.

Fala de D. Nena com admiração e lágrimas nos olhos. “Recebi muito amor”. Sente saudades do abraço materno, reconhece os ensinamentos passados e o amor recebido. Mas sempre falta uma palavra…

Seu Lelé, permanece firme mas não tão forte, entre a Santa Casa de Lucélia e os cuidados da filha mais velha, Ana Maria Javouhey. Seu pai continua criando causos, dando trabalho e arrancando gargalhadas, vivendo seus 80 anos até a última gota! Terá sido com eles que Regina aprendeu que a vida não segue script?

A juventude de fartura e abundância poderia ter criado uma mulher com valores questionáveis. Nada mais longe da verdade. A jovem que ganhou a contragosto um Chevette completo aos 18 anos e não precisava se preocupar com a cor do saldo em sua conta corrente, é generosa, acolhedora e consciente de suas responsabilidades. Consigo e com os outros.

Tomo emprestadas as palavras de Manoel de Barros para dizer que Regina voa além de suas asas. Já percorreu caminhos sagrados como o de Santiago de Compostela, ficou à deriva em águas brasileiras e hoje dá cambalhotas e faz acrobacias no circo. Em seu coração há espaço para palhaços, como o Fred, yogues que tocam a cabeça com os pés e são lindas, como a Silvia Noara, cervejeiros e são paulino roxo, como o Rodrigo, e interculturalistas em busca de poesia, como eu. Carma, flor, vai dar tudo certo!”.

É difícil explicar o que fez com que, dentre 20 e tantas pessoas que estavam juntas pela primeira vez, uma em especial tenha me chamado a atenção. Nem mais bonita nem mais feia, nem mais alta nem mais baixa, nem mais magra nem mais… bom, talvez aqui tenha alguma característica particular, mas certamente não foi o que se destacou para mim. Se fosse para escolher uma coisa só, ficaria com o sorriso, solto, fácil, às vezes nublado, sempre encantador.

Alguém que sorri em flores, só poderia ter nascido em setembro.

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Caçula

Por Regina Magalhães
É seu filho?

Ainda estranho a pergunta já feita mais de uma vez, mas devo reconhecer que ela não é de todo improcedente. Sorrio amarelo e respondo.
Quem vê o jovem alto e grande (leia-se um mix de forte e farto) com a barba cerrada e o franzir de sobrancelhas, o julga mais velho. Quando está sério, tem quase cara de mau. De gorro tricolor, então, que medo. E quando o celular toca evocando Don Corleone? E a luta marcial? Bobagem!  Não se iluda. No fundo, Rodrigo Casarin é um cara sensível, de coração maior que seu tamanho.
Aos 24 anos, reconhece na literatura um caminho para a  evolução humana por ser uma forma de conhecer as diversidades do mundo. Ao falar de Drummond, Dostoievski, Gay Talese, Jorge Amado,  ou qualquer talentoso escritor, ele o faz com intimidade e escreve em seu blog sobre tudo o que lê.
Outros quatro amores fazem parte da sua própria evolução: o time do São Paulo,  a arte de fazer cerveja, desbravar novos lugares e namorar a Bel. Então, é assim, ele rima letras e dribles; malte e gols, lúpulo e livros; Bel e destinos.
Na minha imaginação, quando ele “crescer” vai morar numa espaçosa biblioteca, com os mais variados e nobres títulos em diferentes línguas. Na cozinha, o espaço será dividido com fogareiros e panelas cervejeiras e por todas as paredes, imagens e símbolos das culturas e pessoas que conheceu ao redor do mundo, entre flâmulas do time…
Na multiplicidade humana, o singular carnívoro são paulino convive bem e harmoniosamente com vegetarianos e corintianos.  Para ele, diferenças são bem-vindas.
De raciocínio lógico e fala reta, vai direto ao ponto. Eu não. Eu olho, penso, sinto, sinto, penso e sinto mais um pouco e ele, se deixar, já foi e já voltou. Então, entre pulsos e impulsos, entre sua juventude bruta e o frescor da minha maturidade, formamos na escrita uma promissora dupla – tanto na autoria, quanto na edição. O desejo de contar histórias e contribuir com um legado na área literária da não-ficção nos une profundamente, é onde nossa essência se encontra. E ela se fortalecerá a cada história que ainda vamos contar.
Afinal, é seu filho?
Não, não é. Nós só nos conhecemos na Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), em 2009.  Ele não meu filho, é o caçula da dona Leonor e do seu Edwaldo.
Meu, ele é sócio!
Sorrio orgulhosa.

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O palhaço humaninho

Por Rodrigo Casarin

O ano é 2009 e Frederico Linardi trabalha incessantemente. Escreve todo mês para até cinco revistas, duas vezes por semana transforma-se em assessor de imprensa,  em outro dia, auxilia em toda a comunicação de uma clínica médica. Aproveita cada brecha no relógio para resolver algo. É um homem sério e super atarefado, como manda a cartilha. Trabalha, trabalha, trabalha. O semblante de tragédia que possui quando chega em casa até desanima a bailarina Renata, sua esposa, mas não há tempo para se recompor. Precisa trabalhar mais, trabalhar, trabalhar. Ainda faz cursa francês, isso quando não falta à aula para trabalhar um pouco mais. Passa meses sem conseguir terminar de ler sequer um livro, não tem tempo para tal luxo. Contudo, ao olhar a conta bancária, a recompensa. Nunca ganhara tanto dinheiro na vida. E o melhor, pouco gasta. Não tem tempo para isso também. Enquanto Frederico acumula números no banco, distancia-se de tudo o que mais gosta, afasta-se de si mesmo.

Fred mudara-se de Americana para São Paulo para cursar Jornalismo em 2001 e, depois do choque inicial, habituou-se à cidade. Anos depois, da janela de seu apartamento conheceu a bailarina Renata. Ambos trocavam olhares, até que um dia o garoto resolveu interfonar para a menina que admirava do outro bloco. Combinaram um cinema. Combinaram de namorar. Combinaram de morar junto. E hoje combinam de casar em junho.

As obrigações com a casa, com a vida e a pressão por não desperdiçar oportunidades fizeram com que Fred acabasse virando um refém do trabalho. Não queria isso e decidira que o ano de 2010 seria diferente. Trabalharia menos e faria mais coisas que lhe dessem prazer. Levou o francês mais a sério e resolveu fazer um workshop de palhaços com o grupo Jogando no Quintal.

Desde a infância, o rapaz já admirava os artistas pintados que arrancavam gargalhadas de toda a plateia presente no circo – uma das raras e efêmeras opções de lazer em uma cidade de interior. Também gostava de assistir a peças de teatro e filmes com palhaços, mesmo os que não se vestiam como tal, mas tinham a essência desta figura. Afinal, como não considerar Charles Chaplin um grande palhaço?

A realização do workshop fez com que Fred percebesse que poderia vencer a sua timidez, marca que só não lhe é latente porque é tímido demais para transparecê-la, e levar a palhaçada a sério. Agradava-lhe a maneira que o grupo realizava as brincadeiras. Nada de clássicos como torta na cara ou escorregões em cascas de banana, tudo acontecia – e ainda acontece – na base do improviso, criando piadas em cima de temas sugeridos por alguma pessoa, normalmente da plateia. Gostou da experiência e resolveu fazer um outro workshop que e mesma companhia ofereceu no mês seguinte, com a palhaça Gabriella Argento. Um novo curso se formou e seguiu ao longo de dois anos. Agora, em 2012, essa turma que se manteve unida desde então resolveu se tornar um grupo. O nome? Humaninhos.

Quando está em cena com os Humaninhos, Fred incorpora Pacífico, um palhaço que parece deslocado entre seus pares, não é muito de rir, é crítico, gosta de algumas travessuras nojentas, adora cantar e brinca até com o nascimento de Jesus Cristo. Fred encontra na prosa do escritor uruguaio Eduardo Galeano, no texto Humaninhos*, uma das melhores maneiras de descrever Pacífico, que, mais do que personagem, é uma parte do seu próprio criador.

“Um palhaço se cria com aquilo que está dentro de você, expondo as suas sombras, enxergando os seus problemas e brincando com eles, chegando na essência dos dramas, transformando as tragédias em festas. Ele é  tudo aquilo que os pais ensinam os filhos a esconder. O palhaço é um ser totalmente autobiográfico, pois é feito em cima da história de vida do seu criador. Vestimos a menor máscara – o nariz – para tirarmos todas as outras”, explica Fred. Essa exposição do eu de quem interpreta o palhaço faz com que o próprio ator tenha que criar uma casca para não se machucar. Se Pacífico fizer alguma graça sem graça em cima dos palcos, é de Fred que as pessoas vão rir e debochar pela incompetência em se construir a piada. O palhaço é um ser sem orgulho ou preocupação, sem passado ou futuro. Vive apenas o momento. Pode sair da tristeza de um funeral para a alegria de um carnaval em questão de segundos. Uma ação leva a outra, sem qualquer tipo de julgamento. Um palhaço apenas não vive sem a plateia e seus parceiros, elementos essenciais para que a encenação se sustente.

Trabalhando menos e tendo mais tempo para se dedicar a tudo o que gosta de fazer, no final de 2011 chegou o momento de Fred e Pacífico estrearem nos palcos de um teatro. Para quem odiava se apresentar até para os parceiros de grupo, aquele era um grande desafio. No dia da apresentação, a clássica vontade de ir ao banheiro apareceu também para Fred, que viu a sua garganta secar e pensou diversas vezes em que grande burrada havia feito ao aceitar o convite para tamanha exposição. “Ali não é o seu lugar, não devia ter chamado meus pais, porque fiz isso…”, pensava. Contudo, mesmo assim foi em frente e, ao sair aplaudido do palco, experimentou uma das melhores sensações de sua vida.

Atualmente, Fred toca a vida em um ritmo que lhe possibilita ter os seus prazeres, mas ainda não está plenamente satisfeito. Sonha um dia em sair com um circo pela estrada, rodando cidades e mais cidades do interior do Brasil e contar essa história. Quem sabe até levar Pacífico para conhecer os confins do país e ser conhecido por crianças e adultos dos mais diferentes lugares. Sonha em ir, mas também sonha em voltar. E, quando voltar, estará a bailarina à janela esperando pelo palhaço.

*Humaninhos (Eduardo Galeano)

Darwin nos informou que somos primos dos macacos, e não dos anjos. Depois, ficamos sabendo que vínhamos da selva africana e que nenhuma cegonha nos tinha trazido de Paris. E não faz muito tempo ficamos sabendo que nossos genes são quase iguaizinhos aos genes dos ratos.

Já não sabemos se somos obras-primas de Deus ou piadas do Diabo. Nós, os humaninhos:

os exterminadores de tudo,

os caçadores do próximo,

os criadores da bomba atômica, da bomba de hidrogênio e da bomba de nêutrons, que é a mais saudável de todas porque liquida as pessoas, mas deixa as coisas intactas.

os únicos animais que inventam máquinas,

os únicos que vivem ao serviço das máquinas que inventam,

os únicos que devoram sua casa,

os únicos que envenenam a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer,

os únicos capazes de alugar-se ou se vender ou de alugar ou vender os seus semelhantes,

os únicos que matam por prazer,

os únicos que torturam,

os únicos que violam.

E também
os únicos que riem,

os únicos que sonham acordados,

os únicos que fazem seda da baba dos vermes,

os que convertem lixo em beleza,

os que descobrem cores que o arco-íris desconhece,

os que dão novas músicas às vozes do mundo

e criam palavras, para que não sejam mudas

nem a realidade nem sua memória.

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Encontros e reencontros

Um perfil de Silvia Noara Paladino, uma de nossas escritoras, por Fred Linardi, um de nossos escritores

Silvia deitou-se naquela cama pela primeira vez em sua vida e confirmou a sensação de estar no lugar mais longe de sua casa. Ao invés do desconforto que um quarto desconhecido pode trazer, sentiu-se acolhida. Não o acolhimento por ser recebida na casa de uma amiga, num país distante. Esta sensação estava presente também, mas não foi isso que a tocou ao ser abraçada pela cama, cansada depois de mais de 20 horas que a levaram do Brasil à Tailândia. A chuva que batia pela janela e o vento que fazia dançar as folhas das árvores pareciam entender a jovem jornalista. Era sua primeira noite em Bancoc e a última página de um capítulo que acabou ali, assim que seus olhos se cerraram para o dia seguinte.

Era agosto de 2007 quando Silvia Noara Paladino fazia sua primeira viagem para o lado oriental do mundo. Atraída pela cultura cujas raízes começara a estudar nas aulas de yôga, rumou ao encontro daquilo que esperava, mas também daquilo que pudesse surpreender seus olhos castanhos esverdeados. Pois as viagens, ela sabia, tinham o poder de transformar, de nos fazer encontrar com outros que vivem num mundo diverso, mesmo estando no mesmo planeta. De fazer cada um encontrar-se consigo mesmo, ainda que seja um alguém que nunca se refletiu no espelho todas as manhãs, quando nos levantamos com a cara do sonho que tivemos horas atrás.

A consciência mais sólida que Silvia tinha era de que ela estava lá por decisão própria. Havia se surpreendido ao encontrar sua amiga Ligia Rabay, que morava em Bancoc há dois anos, e visto o quanto ela havia mudado. Pensou em como a própria vida muda de repente, como acontecera com Arlindo Calamari, seu padrasto, que meses antes sofrera um AVC e passou a encarar uma longa e incerta fase de reabilitação.

Pensou no namoro que decidira acabar recentemente, depois de cinco anos de duração, apesar de todo o bem que ele fazia para ela e do quanto ele havia sido importante naqueles meses em que a fragilidade do padrasto fizera sua casa reaprender a viver. Mas Silvia pensou e repensou. A comodidade não era o caminho a ser seguido em assuntos de amor.

Diante de toda a perenidade da vida, comprovou que viajar é o melhor investimento. Mudar de perspectiva é também proporcionar uma série de mudanças interiores. Mais do que isso, é um atestado da liberdade que indica o significado de seu segundo nome, Noara, na língua tupi-guarani. Liberdade para seguir para onde for, como se não existisse patriotismos ou nacionalismos – conceitos tão frágeis quanto o risco de uma fronteira no mapa. Como se o ontem e o hoje se encontrassem além das páginas de um guia turístico.

A filha única, neta única e sobrinha única que foi criada pela mãe e pelos avós despediu-se aos prantos. A viagem que faria por 25 dias fazia sentir uma saudade diferente, de algo que não sabia o quê, mas que precisava ficar para trás. Ao despencar-se na cama de hóspedes de sua amiga, em Bancoc, a chuva que caiu lá fora da janela parece ter varrido essa Silvia recém-chegada.

Nos dias que se seguiram, encontrou nas ruas da Tailândia pessoas amáveis, com uma pureza diferente, um ritmo que o ocidente talvez nunca tenha compreendido o bastante. Alongou sua viagem para a Índia, atraída por algo que chama, sem muito se identificar até o momento em que o viajante bota os pés no chão empoeirado do país de Ganesha, Shiva, Lakshmi. Seja na tranquilidade tailandesa ou no meio do caos indiano, viajar sozinha a fez usar seus sentidos de forma mais aguçada. Entre sustos, surpresas e apuros, voltou ao Brasil já pensando nas próximas.

A sala de redação no último andar de um sofisticado prédio na Avenida Luiz Carlos Berrini, em São Paulo, a relembrava de seus deveres como jornalista. Assim que voltou de férias, foi informada que passaria a ser editora da revista que cobre os maiores avanços da tecnologia. Produzia matérias e organizava os fechamentos quinzenais, muitas vezes deixando sua mesa de trabalho horas depois que a lua já vigiava a cidade que não para.

Também viajou a trabalho. Nova Iorque, Las Vegas, Puerto Vallarta, Buenos Aires, Berlim. Planejou outras viagens de férias, como Grécia e Turquia. Foi na antiga terra do Império Otomano que, em 2011, teve sua segunda grande percepção sobre essas jornadas. Precisamente na Capadócia, onde encontrou casas esculpidas em meio às montanhas, na própria pedra desses acidentes geográficos que o homem soube usar sem destruir. Datadas da época de Cristo, quem olhasse por suas janelas há dois mil anos talvez o tenha visto passar por lá. Desde então, o cenário de cidades como Göreme pouco mudou, ao menos em sua essência que ainda se sobrepõe ao turismo sem conglomerações.

De volta ao trabalho, deparou-se com mais pautas. Ao final do ano passado, Silvia deu mais um passo para seguir em direção ao próprio encontro. Em seis anos de casa, decidiu fazer o seu traslado mais curto: era o momento de descer o elevador do prédio da editora e seguir para um novo rumo profissional. Precisava produzir outros escritos.

Agora em 2012, sua mãe, Maria Inês, sentiu que era o momento de se deixar levar a um destino também. Tudo ao seu tempo, aguardou a adaptação de seus cuidados ao marido. Ao lado de sua mãe e irmãos, rumará à região de Castellabate, na Itália, onde estão suas raízes familiares. Silvia, claro, acompanhará a incursão pelo interior do país. Outros interiores serão visitados.

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