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No quintal dos meus avós

aris

Éramos seis netos brincando na casa dos avós paternos, cujo ambiente trazia ares machadiano. Os modos cerimoniosos e vocabulário rebuscado encenados na sala nos convidavam a brincar no quintal. O piso lá de fora era de concreto cinza e não foram poucas as vezes que meus dedões dos pés toparam contra a superfície áspera fazendo transbordar o vermelho escuro de dentro da pele que antecede a unha.

Bem atrás do muro do quintal havia as janelas da única delegacia da cidade. Não raro as frestas das vidraças se tornavam um sorriso aberto para que dentro delas tentássemos jogar os pequenos limões que caíam de um limoeiro beirando o muro. A adrenalina se elevava ao alto escalão da autoridade municipal. O que faríamos se um dia o delegado, ao invés de fazer uma limonada, tocasse a campainha e mandassem nos chamar?

Um portão conjugava o quintal com uma edícula da casa vizinha, onde morava um casal. A mulher ajudava minha avó nas funções da casa. O homem, não sei o que fazia além de frequentar os botecos da cidade. Quando ele voltava da rua, nossa diversão era afastada para longe. A mulher lhe dava broncas resignadas. Ele retrucava com agressividade assertiva, como o filho mimado, só que adulto.

Não me lembro o nome dela. O nome dele a gente achava engraçado. Foi a primeira vez que conheci alguém chamado Aristóteles.

Fred Linardi

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