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Shakespeare and Company

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Você sabia que uma das livrarias mais lendárias do mundo é a parisiense Shakespeare and Company Bookshop? O que a tornou especial é que desde sua abertura ela hospeda escritores e aspirantes à arte literária que querem passar um tempo em Paris para escrever. A livraria original, aberta em 1919 e fechada pelos nazistas em 1940, abrigou James Joyce, Ezra Pound e Ernest Hemingway. A fundadora da livraria, Sylvia Beach, foi responsável pela primeira publicação de Ulisses, de Joyce. Sua reabertura se deu em 1951, com George Whitman, um admirador de Sylvia que batizou sua livraria com o mesmo nome para seguir a mesma proposta colaborativa.

Diante da ilha onde está a Catedral de Notre-Dame, a Shakespeare and Co. mantém seu charme bagunçado, resistindo ao tempo com sua tradição que a fez famosa no mundo literário.

Veja abaixo o trecho do livro Um livro por dia, de Jeremy Mercer, escritor canadense que contou sua experiência como morador da livraria durante os quatro meses que passou por lá.

“Mesmo assim, George continuou. Primeiro comprou uma bicicleta para facilitar as idas à polícia para os relatórios diários. Depois, transformou o processo em um exercício de criatividade para seus convidados. Em vez de simplesmente anotar as frias informações pessoais, pedia que as pessoas escrevessem um pequeno conto sobre suas vidas e como chegaram à livraria. O hábito foi mantido depois do fim do cerco policial, e hoje George tem um arquivo de maravilhas sociológicas: dezenas de milhares de biografias escritas entre a década de 1960 e hoje, uma vasta pesquisa dos grandes vagabundos dos últimos quarenta anos. A missão de colocar a vida em palavras era uma oportunidade de confissão para muitos, e nas caixas abarrotadas de arquivos há histórias de amor e morte, incesto e vício, sonhos e desilusões, todas com uma fotografia três por quatro colada nelas.

Quando pedi para ficar na Shakespeare and Company, George me falou da tradição e me explicou a seriedade do compromisso. Pela primeira vez, desde quando eu era capaz de recordar, realmente estava nervoso para escrever.”

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Encontros e reencontros

Um perfil de Silvia Noara Paladino, uma de nossas escritoras, por Fred Linardi, um de nossos escritores

Silvia deitou-se naquela cama pela primeira vez em sua vida e confirmou a sensação de estar no lugar mais longe de sua casa. Ao invés do desconforto que um quarto desconhecido pode trazer, sentiu-se acolhida. Não o acolhimento por ser recebida na casa de uma amiga, num país distante. Esta sensação estava presente também, mas não foi isso que a tocou ao ser abraçada pela cama, cansada depois de mais de 20 horas que a levaram do Brasil à Tailândia. A chuva que batia pela janela e o vento que fazia dançar as folhas das árvores pareciam entender a jovem jornalista. Era sua primeira noite em Bancoc e a última página de um capítulo que acabou ali, assim que seus olhos se cerraram para o dia seguinte.

Era agosto de 2007 quando Silvia Noara Paladino fazia sua primeira viagem para o lado oriental do mundo. Atraída pela cultura cujas raízes começara a estudar nas aulas de yôga, rumou ao encontro daquilo que esperava, mas também daquilo que pudesse surpreender seus olhos castanhos esverdeados. Pois as viagens, ela sabia, tinham o poder de transformar, de nos fazer encontrar com outros que vivem num mundo diverso, mesmo estando no mesmo planeta. De fazer cada um encontrar-se consigo mesmo, ainda que seja um alguém que nunca se refletiu no espelho todas as manhãs, quando nos levantamos com a cara do sonho que tivemos horas atrás.

A consciência mais sólida que Silvia tinha era de que ela estava lá por decisão própria. Havia se surpreendido ao encontrar sua amiga Ligia Rabay, que morava em Bancoc há dois anos, e visto o quanto ela havia mudado. Pensou em como a própria vida muda de repente, como acontecera com Arlindo Calamari, seu padrasto, que meses antes sofrera um AVC e passou a encarar uma longa e incerta fase de reabilitação.

Pensou no namoro que decidira acabar recentemente, depois de cinco anos de duração, apesar de todo o bem que ele fazia para ela e do quanto ele havia sido importante naqueles meses em que a fragilidade do padrasto fizera sua casa reaprender a viver. Mas Silvia pensou e repensou. A comodidade não era o caminho a ser seguido em assuntos de amor.

Diante de toda a perenidade da vida, comprovou que viajar é o melhor investimento. Mudar de perspectiva é também proporcionar uma série de mudanças interiores. Mais do que isso, é um atestado da liberdade que indica o significado de seu segundo nome, Noara, na língua tupi-guarani. Liberdade para seguir para onde for, como se não existisse patriotismos ou nacionalismos – conceitos tão frágeis quanto o risco de uma fronteira no mapa. Como se o ontem e o hoje se encontrassem além das páginas de um guia turístico.

A filha única, neta única e sobrinha única que foi criada pela mãe e pelos avós despediu-se aos prantos. A viagem que faria por 25 dias fazia sentir uma saudade diferente, de algo que não sabia o quê, mas que precisava ficar para trás. Ao despencar-se na cama de hóspedes de sua amiga, em Bancoc, a chuva que caiu lá fora da janela parece ter varrido essa Silvia recém-chegada.

Nos dias que se seguiram, encontrou nas ruas da Tailândia pessoas amáveis, com uma pureza diferente, um ritmo que o ocidente talvez nunca tenha compreendido o bastante. Alongou sua viagem para a Índia, atraída por algo que chama, sem muito se identificar até o momento em que o viajante bota os pés no chão empoeirado do país de Ganesha, Shiva, Lakshmi. Seja na tranquilidade tailandesa ou no meio do caos indiano, viajar sozinha a fez usar seus sentidos de forma mais aguçada. Entre sustos, surpresas e apuros, voltou ao Brasil já pensando nas próximas.

A sala de redação no último andar de um sofisticado prédio na Avenida Luiz Carlos Berrini, em São Paulo, a relembrava de seus deveres como jornalista. Assim que voltou de férias, foi informada que passaria a ser editora da revista que cobre os maiores avanços da tecnologia. Produzia matérias e organizava os fechamentos quinzenais, muitas vezes deixando sua mesa de trabalho horas depois que a lua já vigiava a cidade que não para.

Também viajou a trabalho. Nova Iorque, Las Vegas, Puerto Vallarta, Buenos Aires, Berlim. Planejou outras viagens de férias, como Grécia e Turquia. Foi na antiga terra do Império Otomano que, em 2011, teve sua segunda grande percepção sobre essas jornadas. Precisamente na Capadócia, onde encontrou casas esculpidas em meio às montanhas, na própria pedra desses acidentes geográficos que o homem soube usar sem destruir. Datadas da época de Cristo, quem olhasse por suas janelas há dois mil anos talvez o tenha visto passar por lá. Desde então, o cenário de cidades como Göreme pouco mudou, ao menos em sua essência que ainda se sobrepõe ao turismo sem conglomerações.

De volta ao trabalho, deparou-se com mais pautas. Ao final do ano passado, Silvia deu mais um passo para seguir em direção ao próprio encontro. Em seis anos de casa, decidiu fazer o seu traslado mais curto: era o momento de descer o elevador do prédio da editora e seguir para um novo rumo profissional. Precisava produzir outros escritos.

Agora em 2012, sua mãe, Maria Inês, sentiu que era o momento de se deixar levar a um destino também. Tudo ao seu tempo, aguardou a adaptação de seus cuidados ao marido. Ao lado de sua mãe e irmãos, rumará à região de Castellabate, na Itália, onde estão suas raízes familiares. Silvia, claro, acompanhará a incursão pelo interior do país. Outros interiores serão visitados.

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