Nossos textos

No quintal dos meus avós

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Éramos seis netos brincando na casa dos avós paternos, cujo ambiente trazia ares machadiano. Os modos cerimoniosos e vocabulário rebuscado encenados na sala nos convidavam a brincar no quintal. O piso lá de fora era de concreto cinza e não foram poucas as vezes que meus dedões dos pés toparam contra a superfície áspera fazendo transbordar o vermelho escuro de dentro da pele que antecede a unha.

Bem atrás do muro do quintal havia as janelas da única delegacia da cidade. Não raro as frestas das vidraças se tornavam um sorriso aberto para que dentro delas tentássemos jogar os pequenos limões que caíam de um limoeiro beirando o muro. A adrenalina se elevava ao alto escalão da autoridade municipal. O que faríamos se um dia o delegado, ao invés de fazer uma limonada, tocasse a campainha e mandassem nos chamar?

Um portão conjugava o quintal com uma edícula da casa vizinha, onde morava um casal. A mulher ajudava minha avó nas funções da casa. O homem, não sei o que fazia além de frequentar os botecos da cidade. Quando ele voltava da rua, nossa diversão era afastada para longe. A mulher lhe dava broncas resignadas. Ele retrucava com agressividade assertiva, como o filho mimado, só que adulto.

Não me lembro o nome dela. O nome dele a gente achava engraçado. Foi a primeira vez que conheci alguém chamado Aristóteles.

Fred Linardi

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A biografia e o desejo. A biografia e a responsabilidade. A biografia e o agora.

Quando a Biografias & Profecias nasceu, uma das suas propostas era que as pessoas conversassem em vida sobre suas histórias. Que um neto se interessasse pelo passado do seu avô quando este ainda estivesse vivo.

Recentemente, uma passagem me fez refletir como se, de repente, eu tivesse conversando comigo mesma sobre a minha biografia. Mesmo que não faça sentido para todos, arrisco a compartilhá-la por aqui.

Andava com o coração desencontrado, manhoso, pedindo umas coisas a Deus e, depois de uma reflexão profunda entre amigos, fui tomada por um clarão desconfortável nas ideias: há coisas que posso e devo pedir a Ele, há coisas que posso pedir a mentores ou a quem amo, mas há coisas que preciso pedir exclusivamente a mim. E só eu posso atender-me.

O que na minha história atrai a realidade que me encontro? Tantas sementes já frutificaram, tantas flores venho colhendo, mas ainda há mudas que não semeio, não rego, não podo e, claro, não colho. Por que recusar tais frutos? O que ganho e o quanto perco com isso? Do que sou merecedora?  Senti no âmago que merecimento vem da relação de entrega ao amor de Deus coladinho com o compromisso que sou capaz de assumir comigo para minha evolução como ser humano.

E aí aconteceu. Enquanto me paralisava nesse filosofar espiritual, mas também lamentoso e pidão, ao levantar os olhos, tive uma visão: uma senhora alta, esguia, de manto e capuz escuro se apresentava. Não dá para saber o dia, mas me vi frente a frente com ela e era sim a Morte. Trazia na mão… uma foice? Não! Trazia lápis, borracha, canetinhas, aquarela e papel.

Tomei um susto, mas não corri. Já a vi chegar em muitas histórias que acompanhei de perto. Olhei-a nos olhos e num fragmento de segundo, aprendi muito sobre a vida. Não é à toa que dizem que o bom morrer vem de um bom viver. Algo se transformou em mim.

Dei asas à imaginação e vislumbrei um novo encontro. Antes de mais nada, não há pressa. Nenhuma. Que fique bem claro. Mas quando chegar a hora, que eu possa receber bem essa dona, com seu papel e limites.

Não quero uma morte tomada ou invasiva, mas sim que ela se apresente num lindo diálogo. Juntas, eu e ela, vamos examinar, ponderar, rir e apontar o que fica e o que perdi a chance de realizar e nem chegou a ser. Que boas memórias mantenham meu nome sempre vivo por aí.

Que ela não me ameace e que eu não a desacate nem ofenda. Mas que em seu anúncio inevitável nós nos entrevistemos para seguirmos em parceria numa longa escrita, ilustração e edição. Quando o texto da vida estiver concluído, que ele tenha poesia. Entre fim e começo, ela me conduzirá a novos destinos, jardins, florestas e bibliotecas repletas de histórias familiares ou inéditas.

Neste além sem garantias, quero estar preparada para o que há de vir. Por onde começo? Assumindo responsabilidades frente ao que se apresenta e frente a mim. Quando? Agora, vivinha da silva. Agora e na hora de minha morte, amém!

Regina Rapacci

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Caçamba de Entulhos

Por Frederico Boldrin

Mudar-se, às vezes, é tão difícil quanto mudar um hábito. Mudei-me de apartamento há duas semanas e, além do fato de ser muito trabalhoso, notei que acumulamos coisas que – como sempre pensamos – um dia nos serão úteis. Acontece que quase nunca estamos certos. É preciso mudar o costume de acumular objetos, pois corremos o risco de nos tornar aquilo que guardamos: fúteis.

E é preciso também lembrar que entre útil e fútil, dependendo do ponto de vista, não há muita diferença.

Além dos inúmeros itens como enfeites, papéis, capa de óculos sem óculos e roupas velhas, vi-me, no novo apartamento, rodeado por livros. Foi difícil, para não dizer doloroso, me livrar de alguns deles. “Será que me livro dos livros?”, perguntei-me. E no fim, fiquei livre deles. Carreguei-os na mochila e fui a um sebo para doá-los, e assim tirei um enorme peso das costas. Alguns deles não me agradaram, outros simplesmente não havia lido e outros comecei a ler uma dezena de vezes, mas sempre parava no mesmo lugar. Acumulavam um espaço que eu já não tinha. Pensei até em adquirir um leitor de livro digital, mas, de todos que manuseei até agora, nenhum me agradou. Vai ver meu apego ao livro físico continua forte; o cheiro e as texturas das páginas são algumas das boas sensações da vida. Mais ainda quando a peça, por si só, é uma arte. Sei que há livros que jamais abrirei mão, que foram fundamentais para mim. Eles não somente trazem uma excelente história impressa, como também me despertam sentimentos e recordações que me levam, quase literalmente, para um outro lugar.

Acredito sim que é preciso se desprender de certos objetos que nada nos dizem e valorizar mais os seres humanos (ou ao menos, a própria vida), que muito têm a nos dizer. Sair, refletir, construir novos relacionamentos e histórias, amar e beijar, retirar-se da zona de conforto e solidificar novas memórias duradouras. Afinal, já diziam os poetas que somos apenas memória. Mudar de apartamento, cidade ou país, nos traz a sensação de recomeço, até de renascimento; podemos tentar adotar uma nova postura, enxergar o mundo de outra forma, adquirir alguns hábitos e se desenrascar de outros, mas nada disso será possível se não nos reconhecermos no agora, se não olharmos para o passado e resgatarmos a trajetória que nos levou até aqui.

Muitas vezes tendemos a esperar algo externo para que possamos mudar nossos hábitos. Por mais que mudar de casa, escola, trabalho, país etc. possa ser um bom impulso para tentar mudar como somos, a mudança externa, física, pouco ajudará para ocorrer a mudança interna. Essa só você é capaz de fazê-la e, por mais trabalhoso que possa ser, não é preciso nenhum caminhão de mudança. Talvez apenas uma caçamba de entulhos.

 

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Um dos exemplos de livros que jamais abrirei mão.

 

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Aturdido – a vida que se vai e as palavras que ficam

tumblr_mm6iq5lHsP1ql5rm1o1_500 Por Fred Linardi

Eis que um querido conhecido diz para outra parceira e amiga do coração: este ano não foi dois mil e catorze, foi dois mil e catarse. E então eu assimilo que de fato o ano não deve ter sido difícil só para mim. É certo também que este tipo de afirmativa – que confere adjetivos não muito virtuosos ao ano que está acabando – é praticamente um lugar comum nessa época que precede as festas. Não raro ouvimos “esse ano precisa acabar”, ou “ano que vem vai ser melhor”.Bom, o desejo é de que sempre seja melhor, mas fecho esse ano com uma sensação de esgotamento após uma série de perdas que eu pessoas próximas de mim vivenciaram.

Assim o que vem com toda a força no meu peito neste momento é final do mês de agosto, quando o telefone tocou às quatro e meia da manhã e eu atendi temendo o esperado. Depois de pouco mais de um mês de internação, com graves problemas de saúde, meu pai não resistiu a uma infecção resultante de pneumonia. Para ele, no entanto, as coisas já não estavam bem desde o ano passado, quando após um susto, conseguiu retirar um tumor encontrado em seu intestino quase por acaso, mas na fase inicial e em tempo o suficiente para uma cirurgia bem-sucedida. Depois dela, o médico prometeu-lhe, poderia esquecer que um dia aquele tumor habitou seu corpo. Não havia nem mesmo mais vestígio dele.

Mas os vestígios ficam. Levamos vestígios de tudo o que vivemos. Lembranças que jamais queremos esquecer, assim como aquelas que tentamos apagar e, talvez por este esforço de esquecê-las, calcificam-se em nosso íntimo, causando outros vazios.

Mesmo sem sinais de câncer, meu velho sentia-se mais velho do que realmente era. Havia se passado apenas cinco anos que completara 60, mas ele – como um bom advogado – gostava das coisas oficiais, escritas no papel. E no papel, depois de completar essa idade, nos chamam de idosos, ou então de melhor idade. Não sei se de fato é a melhor, mas ao menos reservam as melhores vagas de estacionamento. Talvez este tenha sido o único privilégio usado pelo meu pai. De resto, ele determinou sua idade como uma sentença final, de fim de vida.

Achou que não iria superar aquela cirurgia. Fez uma reunião familiar comigo, meu irmão e minha mãe. Deu coordenadas burocráticas e espirituais. Concluiu dizendo que, se morresse, queria ser cremado. Perguntei-lhe então se havia feito planos se, por acaso, vivesse. Ele olhou para mim como que sem graça e acredito que tenha pensado: “de novo, lá vem o Fred com suas colocações…” Mas me olhou de uma maneira diferente e respondeu que tentaria viver melhor e se cuidar mais.

Só que teve dificuldades para isso. Poucos meses depois, caiu na calçada antes de entrar no carro, quebrando gravemente o cotovelo. Foi o início da série de complicações que renderia um extenso texto que não vem ao caso agora, quando relembro apenas o fato de que, aos 66, meu pai aceitou perder-se de si mesmo. Calcificou os vestígios da vida com mais eficiência do que seus ossos quando, numa outra queda, teve a bacia e duas vértebras fraturadas, obrigando-o a ficar muito tempo deitado e sofrendo por não poder fumar, enquanto uma pneumonia abreviou seu tempo.

O ano de intenso trabalho me jogou entre este tempo de luto enquanto eu me coloca a serviço do luto de uma família que havia procurado a Biografias & Profecias para um lindo projeto. No começo do ano, uma filha e um pai nos confiaram a história de sua esposa, que havia falecido em setembro do ano passado. Antes mesmo de seis meses do ocorrido, lá estávamos diante deles para que nos contassem as histórias que sua amada gostaria de ter deixado num livro de memórias, mas não teve tempo para isso devido à sua doença.

Depois de tantas entrevistas, eu escrevia o último capítulo do livro (e da vida desta protagonista), quando precisei elaborar meu próprio luto. O luto pela morte do meu pai. De uma hora para outra, a dor do outro se tornou também a minha, mesmo que cada um com sua própria história. Tentei transformar tudo em inspiração, sublimando o vazio da perda e transformando-o em criação. Preenchi com palavras.

E a busca por palavras me fez lembrar em aturdido.

Ainda no primeiro semestre, meu pai, desanimado pela depressão, ligava para mim quase todos os dias, mesmo sem muito a dizer. Eu sentia o constrangimento daquela solidão sintomática, neste desejo inalcançável de se comunicar. Muitas vezes, ele ligava e recorria “fala alguma coisa…” Às vezes eu lhe contava sobre meu dia, outras vezes, quando eu não tinha assunto, lhe respondia “fala você também, afinal foi você quem me ligou”. Esta última, algumas vezes me fez bater um arrependimento pela firmeza com a qual lhe retrucava. Então, comecei a pensar em formas diferentes de preencher o silêncio.

Até que teve uma tarde em que ele me ligou, ainda no primeiro semestre deste ano de 2014, quando eu estava no processo de escrita de um outro livro. O telefone tocou exatamente no momento em que eu pensava em sinônimos ou analogias para a palavra confuso. Então, quando ele me solicitou que eu contasse alguma coisa, comecei a falar sobre a história que eu estava escrevendo, desde o primeiro capítulo até aquele quinto, ainda em processo. E que eu buscava o tal sinônimo, evitando a repetição dos termos em parágrafos tão próximos. Depois de um ou dois palpites, ele veio com aturdido. Opa, essa era boa! Segui, então, os próximos parágrafos.

Meu pai encerrou sua vida antes da edição deste livro. Não chegou a vê-lo pronto. Pediu para eu lhe enviar o texto original, mesmo que ainda não finalizado, mas já não teve energia para ler. De qualquer forma, o mais importante estava feito e talvez tenha causado maior satisfação em mim do que nele: o dia em que eu, escritor, tentando romper o silêncio que vinha de meu pai, fui preenchido pela matéria-prima do meu trabalho. Por um instante, ele se tornou meu coautor.

Com sua morte, tenho revivido minha história e tentado relembrar mais sobre ele. Reconhecer seus valores novamente, agradecer pelo que jamais poderá ser retribuído, assim como redimi-lo daquilo que, arrogantemente, sempre julguei ser suas falhas – principalmente ao fato de ele ter quebrado a promessa de que se cuidaria mais.

Em novembro, cumprimos a nossa. Finalmente levamos suas cinzas para um lugar que lhe faria feliz. Plantamos uma árvore florida e regamos a primavera com ele. O último capítulo de sua vida encontrou então uma nova. E o silêncio do filho que perde o pai terá de encontrar outras vozes para ajudar a preencher as próximas páginas em branco.

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