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Voz do cliente – Douglas Prats

Douglas Prats foi nosso primeiro cliente, na época em que a Biografias & Profecias passava de um sonho para a realidade. Era 2006 quando apresentamos para ele a ideia de uma editora com essa proposta e ele não só apreciou como já quis um livro.

Agora quem conta a história é ele:

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Agora é hora de alegria

Por Sylvia Beatrix

Tenho um belo CV.

Meu curriculum vitae contempla dois casamentos, dois filhos, dois enteados, duas sogras, cinco cunhados, uma irmã, sete tios, um padrasto, quatro avós, catorze primos e aproximadamente dois mil, quatrocentos e noventa domingos. Por isso, me sinto habilitada a dizer, assim de chofre, que almoço dominical familiar não tem cor, nem credo: c’est tout la même chose.

Antes de me tornar uma das protagonistas de cenas familiares óbvias, como apertar entusiasticamente bochechas rosadas de sobrinhos exclamando “Como você cresceu!”, e na seqüência emendar com o famoso “precisamos nos ver mais vezes”, fui parte integrante do casting desta peça chamada “Família” que está em cartaz há mais tempo que a peça de teatro “Trair e Coçar”.  Sim, pois eu tenho 48 anos e a peça está em cartaz há 25.

É bem verdade que cenário, figurino e alguns atores mudaram ao longo do tempo, mas o enredo dominical passou por pouquíssimas revisões. Alguns modismos foram incorporados, coisa que ”       ninguém merece” e está longe de ser “chique no urtimo”, mas desde que me entendo por gente e vejo o Tarcísio Meira fazendo papel de galã às oito da noite, esta sutil reciclagem acontece. Porém, em nenhuma destas revisões – uma só vez que fosse – incluiu a correção dos erros de português cometidos pela famiglia. Isso, nem a pau, Juvenal – a manutenção de “um chopps e dois pastel” é uma questão de honra! Hoje, até vejo um certo charme nisso, mas quando era adolescente – que vergonha!

A principal diferença entre a tradicional lasanha bolonhesa da nonna Karin – minha mãe – com massa caseira e molho de tomate pelado italiano, cozido por horas a fio até chegar ao ponto ideal para só então receber as mini-micro-minúsculas “porpetas”, enroladas uma a uma na noite anterior enquanto a conversa flui com a TV da cozinha ligada, e o sarapatel de mãinha  – Dona Léa, minha sogracarregado de coentro, hortelã e salsinha, miúdos de porco milimetricamente cortados, que também é preparado por horas intermináveis, está no cheiro do palco de quem preparou a iguaria, ou seja, a cozinha. Entram em cena aqui, as fiéis escudeiras, ajudantes do lar, companheiras de vida – Dilma, Maria ou Luzia,  – que há muito tempo acompanham todos os personagens dessa nossa história pessoal. Choram com os nascimentos, sentem as partidas, mas chova ou faça sol, estão com o script na ponta da língua.

Pode ser que, pelo fato do movimento de emancipação feminina ter sido iniciado na terra do fast food e bem longe dos fogões, alguns belos sutiãs foram queimados à toa. O feminismo não alcançou a sala de casa. Quando a comida ansiosamente aguardada e fumegante chega à mesa em travessas pirex, envoltas por panos de prato e acompanhadas dos gritos de “tá quente!” ou “abre espaço na mesa!”, pais, avós, genros e cunhados se aboletam ao redor da mesa e esperam para serem servidos. As amélias entram em cena. Simone de Beauvoir rola de raiva no túmulo. Uma porção disso, aquilo não quero, pouco mais de molho aqui, arroz não precisa,  são distribuídos em cada prato. Sorrisos, acompanham o cardápio.


Assim que esta etapa é concluída, mães, avós, noras e cunhadas partem para a próxima etapa que é servir os filhos. Esta é muito mais rápida, as crianças estão entupidas de salgadinhos diversos, dizem não à praticamente tudo que é oferecido e o que querem é brincar. Ritual terminado é chegada a nossa vez. Sim, eu perpetuo este ritual. Esse papo de mulheres e crianças primeiro, só em naufrágio de navio.

Tanto na família ítalo-paulistana  (a minha família direta) quanto na carioca-nordestina (a família de meu marido),  a quantidade de comida servida alimenta os meus, os teus e os nossos. Pode incluir as  torcidas do Fluminense e do Palmeiras. E ainda sobra para levarmos para casa.

Campeonato paulista, carioca, baiano, italiano e espanhol; peteca, bolinha de gude, automobilismo e tênis, são os temas para a conversa masculina, enquanto a novela, o casamento real britânico, botox e o melhor produto para cabelos ressecados, permeiam o bate papo feminino. Assuntos comuns aos dois lados desta moeda são o transito nas cidades, a falta de tempo, o cenário político nacional, cultura em geral e as manchetes do momento. Se uma discussão mais calorosa não aconteceu na hora do futebol, pode ser que aconteça na hora do licorzinho com café.

Na proporção semanal de seis “boa noite” do William Bonner para um “vamos sorrir e cantar” de Silvio Santos é que esta e outras histórias são lentamente construídas. O “almoço de domingo” pode ter o mesmo jeito, muitas vezes os mesmos participantes, mas cada um deles, constrói a minha história.

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Caçula

Por Regina Magalhães
É seu filho?

Ainda estranho a pergunta já feita mais de uma vez, mas devo reconhecer que ela não é de todo improcedente. Sorrio amarelo e respondo.
Quem vê o jovem alto e grande (leia-se um mix de forte e farto) com a barba cerrada e o franzir de sobrancelhas, o julga mais velho. Quando está sério, tem quase cara de mau. De gorro tricolor, então, que medo. E quando o celular toca evocando Don Corleone? E a luta marcial? Bobagem!  Não se iluda. No fundo, Rodrigo Casarin é um cara sensível, de coração maior que seu tamanho.
Aos 24 anos, reconhece na literatura um caminho para a  evolução humana por ser uma forma de conhecer as diversidades do mundo. Ao falar de Drummond, Dostoievski, Gay Talese, Jorge Amado,  ou qualquer talentoso escritor, ele o faz com intimidade e escreve em seu blog sobre tudo o que lê.
Outros quatro amores fazem parte da sua própria evolução: o time do São Paulo,  a arte de fazer cerveja, desbravar novos lugares e namorar a Bel. Então, é assim, ele rima letras e dribles; malte e gols, lúpulo e livros; Bel e destinos.
Na minha imaginação, quando ele “crescer” vai morar numa espaçosa biblioteca, com os mais variados e nobres títulos em diferentes línguas. Na cozinha, o espaço será dividido com fogareiros e panelas cervejeiras e por todas as paredes, imagens e símbolos das culturas e pessoas que conheceu ao redor do mundo, entre flâmulas do time…
Na multiplicidade humana, o singular carnívoro são paulino convive bem e harmoniosamente com vegetarianos e corintianos.  Para ele, diferenças são bem-vindas.
De raciocínio lógico e fala reta, vai direto ao ponto. Eu não. Eu olho, penso, sinto, sinto, penso e sinto mais um pouco e ele, se deixar, já foi e já voltou. Então, entre pulsos e impulsos, entre sua juventude bruta e o frescor da minha maturidade, formamos na escrita uma promissora dupla – tanto na autoria, quanto na edição. O desejo de contar histórias e contribuir com um legado na área literária da não-ficção nos une profundamente, é onde nossa essência se encontra. E ela se fortalecerá a cada história que ainda vamos contar.
Afinal, é seu filho?
Não, não é. Nós só nos conhecemos na Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), em 2009.  Ele não meu filho, é o caçula da dona Leonor e do seu Edwaldo.
Meu, ele é sócio!
Sorrio orgulhosa.

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Sobre datas e renúncias

Por Silvia Noara

Eu tinha 16 anos quando meu avô faleceu. Foi a primeira vez que julguei ter perdido algo de valioso, embora eu viesse a me dar conta disso, de fato, anos mais tarde, de um modo que eu jamais poderia supor. Já não me lembro de como a notícia se verbalizou, do que pensei em vestir para o funeral ou de quem abracei primeiro, mas uma memória, em particular, veste cores e formas originais.

Estava parada diante de um quadro que informava os nomes dos falecidos velados, no momento, nas três ou quatro salas que se estendiam pelo corredor. Naquela noite, só havia o do meu avô: Silvio Antônio Paladino. Talvez tenha permanecido ali, de pé, com os braços cruzados, por alguns minutos. Relia o nome que havia inspirado o meu próprio, então olhava para os lados. Lia novamente nomes e sobrenome, devagar, verificando se cada letra estava correta. Até alguém se aproximar e colocar as mãos nos meus ombros.

As pessoas procuram rodear quem sofre sozinho, vigiar a imobilidade da face, das mãos estrelaçadas uma à outra, dos olhos voltados para dentro. Como rastros de pensamentos que escorrem para lugar algum, da relutância que morre lentamente. Teme-se a inércia. É melhor que chore.

Primeiro, meu avô me acostumou, quando bebê, a dormir com os pés livres – antes de se deitar, arrancava as meias com que as matriarcas da casa me envolviam com tanto afeto. Depois, acordou meus ouvidos para a música clássica, quando fechava a porta do quarto e, ao som alto, solitário, dançava com as mãos no ar, como se regesse uma orquestra. Outras vezes, tocava violino. E eu o observava pelo buraco da fechadura.

Mais tarde, ensinou-me a entrega absoluta da mente a um jogo de xadrez. Jogávamos após o jantar, geralmente. Às vezes, ele cochilava durante a minha indecisão, mas, quando abria os olhos, já sabia o que se passara no tabuleiro. Ele diria que consequências são fatos previsíveis quando a consciência recolhe as partes que, desatenta, vai deixando pelo chão.

Por alguns anos, quando adolescente, competi nos jogos escolares da cidade em que cresci, entre as poucas meninas da idade que vibravam ao rematar um xeque-mate. Tantos significados, papéis e hierarquia quando pouco disso se compreendia. Meu avô me acompanhava em todas as competições e, enquanto eu jogava, tomava uma distância razoável do limite permitido aos pais e treinadores aflitos – os únicos capazes de encarar uma partida de xadrez amadora, feminina e infanto-juvenil. Não queria pressionar.

Com os óculos repousados quase sobre a ponta do nariz, camisa de mangas curtas por dentro da calça de linho e mãos nos bolsos, ele permanecia em pé, o tempo todo. E, ainda que a vitória fosse minha, à confirmação da queda do rei, aproximava-se do tabuleiro, desconstruía a formação das peças e reproduzia os lances imperfeitos, para apontar os erros que eu havia cometido.

Essas são algumas das minhas melhores memórias.

Pouco tempo atrás, voltei à sepultura da família Caffaro – é o sobrenome de minha bisavó Gabriela, barrado nas certidões de nascimento das gerações seguintes (invenções da cultura patriarcal), que identifica o jazigo. Desde o enterro, eu havia estado lá por uma ou duas vezes. Parti sem dúvida, sem celular, protetor solar, almoço ou um plano para me lembrar de como encontrar a rua do mausoléu nos mais de 200 mil metros quadrados do Cemitério do Araçá (na Avenida Doutor Arnaldo, em São Paulo). O fato é que adiei o dilema até estacionar o carro, comprar um vaso de girassol – questionei-me, por um momento, se seria esse um presente alegre demais para os mortos – e atravessar o portão principal do cemitério, que estava quase deserto naquele domingo, por volta de duas da tarde.

Nunca entendi o que pode haver de perturbador em cemitérios. Afinal, se enterrar os mortos é a tentativa de conservar uma prova da vida que existiu, isentando a memória do encargo de única testemunha do passado, porque alguém haveria de evitá-los? Desde que um sujeito teve a ideia de associar saudade a arrependimento, natural a divino, fim a tristeza, morte a mórbido, quem gosta de cemitérios virou gótico. Isso que é distração.

Um tanto distraída eu estava, naquele domingo, com as obras de arte que adornam os túmulos do Araçá. Iniciei a caminhada sentindo a pele arder do sol sem transpirar. A memória enevoada ainda me serviu para reconhecer a primeira rua à direita, um corredor que parecia ter apenas começo. Depois disso, encobriu-se de vez. Continuei em frente e rapidamente desisti de contar as transversais que ficavam para trás. Só interrompi os passos quando senti o brinco da orelha direita cair no chão, após deslizar sobre a blusa fina de malha. Notei que estava em um cruzamento semelhante a todos os outros e, lamentando o gasto de energia desnecessário, agachei-me para recuperar o acessório.

Ao levantar a cabeça, de frente para a rua à esquerda, a primeira imagem em que meus olhos recaíram foi a de um jazigo-capela, do qual eu conseguia ver apenas a parede lateral, cerca de 30 ou 35 metros adiante, talvez. Em companhia do meu diálogo mental, pensei o quão improvável seria ter encontrado o que procurava. De qualquer forma, eu tinha que arriscar algum trajeto, antes que o calor fizesse derreter a minha pressão. Coloquei o brinco no bolso do shorts e segui, reconhecendo pouco a pouco as formas daquela construção, até que parei diante dela:“FAMÍLIA CAFFARO”.

Esses são os fatos. E ponto.

Outro fato irreparável é a placa pregada à direita da porta da capela, ao alto, com uma pequena e já lascada foto do meu avô e as datas que abreviam uma vida toda: ♦ 17 – 9 – 1931 / † 16 – 1 – 1998. Tão consistente quanto os marcos temporais é a fobia de dormir de meias, o esforço de manter pelo menos os pés, descalços, no chão, ou a sensação de que nunca mais estarei preparada para uma partida de xadrez. O som de violino sempre vai me fazer chorar. É fato. E então virá o esquecimento, junto à contemplação de tudo o que não se conhece.

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