Fonte de inspiração

Narrar sua história é gerar empatia

Nos deparamos com essa ótima entrevista concedida por Rodrigo Cogo à Rádio CBN e fizemos questão de compartilhá-la com nosso público. Ela reforça o conceito de que histórias podem apoiar diferentes processos nas empresas.

Relembramos muito das dezenas de experiências positivas que nossos clientes, colaboradores, amigos e familiares já tiveram ao longo do processo de construção de história que a Biografias & Profecias oferece desde 2006.

Desde quando passamos a atender as empresas, nos colocamos a encarar um novo aprendizado, com algumas diferenças em comparação às histórias familiares. Mas desde o começo seguimos uma premissa que reúne a realidade das famílias e das empresas: ambas são formadas por pessoas. Portanto, o valor que continua nos acompanhando é o da humanização.

Numa era em que todos falam muito e poucos têm tempo ou interesse para escutar, sabíamos que a maneira para chamar a atenção do nosso leitor seria contar a história de maneira atraente, respeitando o tempo que ele porventura reserva.

Rodrigo Cogo vai direto ao assunto ao apontar que hoje as empresas começam a resgatar as vidas que existem por trás de documentos e números. São pessoas repletas de emoções e, claro, memórias. E quando se junta esse arcabouço de histórias, temos um conjunto de narrativas com emoções da vida real e vozes autênticas. Rodrigo, que acaba de lançar um livro sobre o assunto, Storytelling – as narrativas da memória na estratégia da comunicação, ainda é enfático ao dizer que, além das boas repercussões internas, os desdobramentos ao público externo são também os mais variados.

Não é de hoje que o mercado (ou a humanidade) percebe a eficiência de se compartilhar as histórias reais da marca e das pessoas que trabalham ou convivem com ela de alguma maneira. Outro especialista no assunto, Adilson Xavier, apresenta logo no início do livro Storytelling – histórias que deixam marcas, o drama vivenciado por publicitários e outros comunicadores diante deste quadro atual em que a tecnologia passa a pedir mais afetividade; a opções de entretenimento se conflituam com o tempo possível das pessoas; o volume de informação briga com a capacidade de retenção; e a superficialidade gera uma sede por profundidade.

Diante dos processos que conduzimos (de livros a oficinas de histórias de vida) e os resultados (as histórias compartilhadas), podemos testemunhar o que vai além: o despertar da empatia ao assunto, às outras pessoas e, claro, à marca.

Se você é empresário – seja de pequena, média ou grande empresa – vale a pena ganhar 30 minutos do seu dia ouvindo o que Rodrigo Cogo diz sobre essa estratégia repleta de vida e empatia.

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Um ponto para nossa memória

Faz poucos anos, talvez uns dois, que voltei de recesso e tomei um susto ao passar pela Paulista e ver que um casarão tinha se reduzido ao pó. Perto dele, no mesmo quarteirão, numa esquina com a Alameda Santos, outro palacete tinha se tornado mais um terreno prestes à planagem que planifica a cidade cheia de espigões.

Enquanto damos adeus ao ano velho, outras memórias costumam ir embora, num lapso aproveitado pela especulação imobiliária. Casas caem na surdina, enquanto a fiscalização dorme ao lado das garrafas entornadas no Réveillon.

Dizer que o Brasil é um país sem memória faz todo sentido. Não só pela mágica amnésia política, mas também por não termos conhecimento do lugar em que habitamos. Além das casas não preservadas, ignoramos as histórias não registradas. A literatura de memória, tão praticada e lida em países como Estados Unidos, Inglaterra e França, pouco tem tradição por aqui.

carnaval1926

Carnaval na Av. Paulista, 1926.

É fato que os livros de memória partem de uma motivação autobiográfica, narrando as reminiscências da infância, as histórias que os velhos contavam, as relações entre pais e filhos, assim como os costumes e cenários de outrora. Isso tudo, por si só, já é motivo para grande interesse. As histórias de vida são uma ótima ferramenta para entendermos o passado do outro e identificar com o presente em que vivemos. As questões, as frustrações, as conquistas, a trajetória como um todo, são particularidades biográficas e, ao mesmo tempo, elementos universais.

No livro Escrevendo com a Alma, formado por uma coletânea de ensaios e crônicas que se dedicam a orientar o ato de escrever sobre o que te der na telha, inclusive as memórias pessoais, Natalie Goldberg logo aconselha para que os aspirantes à escrita se preocupem em escrever antes de pensar em mais nada, deixando de lado armadilhas do ego, principalmente as que tendem a bloquear a criação. A preocupação se aquilo é arte ou não pode vir num momento bem posterior; depois de muita prática, claro.

Talvez pelo medo de soar ridículo, de não saber “escrever como um escritor”, muitos se silenciam. Filhos deixam de encontrar diários dos avos e pais. Netos não alcançam mais a história dos bisavós e assim gerações se apagam com o passar de décadas.

Não sei daquele palacete da Avenida Paulista que, há dois anos, deixou de existir. Não imaginava que na década de 1920, na esquina da Alameda Santos com a Rua da Consolação, havia outra casa mais simples, com um jardim e paredes pintadas com gravuras e em cujo muro se apoiavam os moradores vendo os cortejos fúnebres passarem em direção ao Cemitério da Consolação. A Avenida Paulista, muito chique, não poderia ser palco para isso. Tampouco sabia que a Rua Caetano Pinto, no bairro do Bixiga, era temida devido aos seus moradores, a maioria deles vindos do sul da Itália e mal afamados por sua brigas e gritarias.

Anarquistas

Antes de começar a escrever seu primeiro livro, Anarquistas, graças a Deus, Zélia Gattai almejava apenas escrever um conto inspirado por uma passagem de sua infância. Ao ver o esboço de algumas páginas, Jorge Amado devolveu-lhe: esqueça o conto e escreva logo suas memórias. E assim sua esposa fez. O resultado, publicado originalmente em 1979, é um texto com as melhores cores de uma obra de memória. Com histórias contadas de maneira despretensiosa, sua linguagem se encontra com a espirituosidade e ingenuidade infantil da década da garota, ao passo que vemos um retrato de uma família italiana num Brasil que prometia a realização de sonhos para quem cruzava os mares e aportava por aqui.

Em meio ao ambiente e organização de uma casa de pais com convicções anarquista “ma non troppo”, Zélia escreveu seu retrato da São Paulo dos bondes, dos piqueniques no Parque da Luz, das movimentações da Revolução de 1932, dos carnavais, narrando a partir do cenário de imigrantes que lutam para se estabelecer dentro do desenvolvimento de um país que, para muitos deles, reservavam trabalhos semelhantes a de novos escravos. No caso dos Gattai, foi com a abertura de oficina para carros que Ernesto, o pai, empreendeu seu negócio num galpão da casa alugada, garantindo o sustento e conforto aos cinco filhos.

Entre a escassa bibliografia do gênero no Brasil, Anarquistas, graças a Deus é um exemplo do valor de se fazer esse tipo de registro. Entre tantas contribuições apontadas pelos estudiosos da memória, é a partir dele que recuperamos um passado desconhecido até a leitura. E como conclui Lilia Moritz Schwarcz no posfácio desta edição, narrativas como esta “descrevem um mundo que, apesar de perdido no tempo, continua guardado na memória, agora afetiva”, e que “eternas são as histórias que nasceram para não acabar”.

Feito isso, nem tratores são capazes de derrubá-las.

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Fragmentos da vida entre livros

Por Rodrigo Casarin

1. 

Sou são paulino e apaixonado por futebol. Antes do preço dos ingressos me afastar da arquibancada, ia praticamente toda semana ao Morumbi, e às vezes até viajava para torcer. Como também sempre gostei muito de ler, natural que tenha um enorme interesse por livros sobre futebol e torcidas.

Em uma conversa, descobri que precisava ler Entre os vândalos, de Bill Buford, jornalista que viveu como autêntico hooligan do Manchester United e depois transformou sua experiência em livro-reportagem. Torcedor eu já era, e havia decidido cursar jornalismo. Claro que fiquei empolgado. Queria a obra imediatamente, mas mal sabia o quanto demoraria para consegui-la.

Comecei a busca quando estava no primeiro ou segundo colegial. Frustrei-me, estava esgotado. Seria exagero dizer que visitei quase todos os sebos de São Paulo, mas com certeza entrei em todos pelos que passei em frente: ninguém tinha o maldito livro. De tempos em tempos, mandava e-mail para a Companhia das Letras. Minha esperança não era que republicassem Entre os vândalos apenas por minha causa, mas que achassem um mísero exemplar perdido na editora. Não rolou.

Foi no segundo ou terceiro ano da faculdade que descobri o Estante Virtual. Finalmente uma nova chance se abria. Pelo que tinham me dito, seria impossível não achar alguma obra no site. Mentira, já não achei algumas, mas felizmente três exemplares de Entre os vândalos estavam à venda. Comprei de um sebo em Bauru, era o que estava mais próximo de São Paulo. Virou o meu livro de estimação.

Alguns anos depois, finalmente a Companhia das Letras republicou a obra. Confesso que até hoje, sempre que esbarro com algum exemplar na livraria, tenho vontade de comprá-lo. É estranho vê-lo ali, fácil, à disposição.

2.

Estávamos reunidos em umas dez pessoas. Discutíamos particularidades e rumos de um dos livros que estou escrevendo. O lugar era uma mistura de sala de estar e biblioteca. Logo interrompemos o papo para almoçar.

Nosso anfitrião é um grande colecionador. Dentre suas coleções, a de livros é uma das proeminentes. Enquanto pessoas se serviam de quiches e copos de água, aproveitei para dar uma olhada nos exemplares que estavam enfileirados nas prateleiras. Pouca coisa me chamou a atenção.

Sentamos, almoçamos, falamos amenidades e partimos para o café e a sobremesa. Ficamos todos de pé, rodando pelo espaço. Voltei às prateleiras e, enfim, um volume realmente me atraiu. Aliás, não só a mim, mas aos que me acompanhavam também. Indiscutivelmente, tínhamos ali uma preciosidade que nos maravilhava. Logo o anfitrião puxou uma mesa embutida à estante, pegou o livro e cuidadosamente abriu para que nós o admirássemos. Não tinha nome, mas o importante era sua data: 1492.

Ao vê-lo, fiquei momentaneamente paralisado, mas poderia jamais ter outra chance de me relacionar com um Matusalém daqueles. Abdiquei da compostura que a reunião pedia. Só ver o livro não bastava. Toquei, peguei, acariciei e, finalmente, levantei o livro e meti o nariz o mais próximo possível das suas páginas — precisava saber quais cheiros trazia do século 15.

Não senti grandes coisas, mas ao menos não espirrei.

Saí de lá surpreso: como uma raridade daquelas estava ali, sem proteção alguma, à mercê de uma xícara de café voadora ou de uma colher que erre a boca e derrube pavê sobre suas centenárias páginas?

3. 

Sempre precisamos organizar minimamente nossos livros. Na parte de cima da minha estante ficam as obras, digamos, técnicas. Um pouco abaixo estão as de não-ficção. Já mais perto do chão, ficção, e, na mais baixa das prateleiras, livros sobre futebol — não o Entre os vândalos, que está em não-ficção —, música, livros que escrevi, enfim, um apanhado de tudo o que sobrou.

Dentro de cada uma dessas seções, eles são separados novamente de acordo com o seu gênero específico e dispostos conforme o sobrenome dos autores. Tudo isso na teoria, claro, pois na prática pouco funciona. Raramente um livro retirado da estante volta para o seu lugar de origem. Logo os espaços acabam e precisamos abrir concessões. Se não cabe mais nada na parte de biografias, é mais fácil deixar a vida de Borges provisoriamente perto de um Dostoiévski do que remanejar todas as obras até que ache algum espaço mais adequado.

Também há muitos livros que são difíceis de classificar. Onde colocar o último de David Foster Wallace (que precisei tirar da estante e já não voltará mais para o seu lugar)? Apesar da capa dizer que se trata de um livro de ensaios, a classificação não me convence. Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo é muito mais um apanhado de experiências jornalísticas de DFW. E Nu, de botas, do Antonio Prata? São memórias de sua infância, mas, pela forma e pelo autor, estou propenso a colocá-lo junto de obras ficcionais, não próximo de O ano do pensamento mágico. A plena e satisfatória organização de uma estante ou de uma biblioteca é uma utopia. Gosto de utopias.

4.

fantasmas_na_biblioteca_1364484163pNão costumo falar de mim em resenhas — se é que deste texto está saindo uma resenha —, deixo isso para quem sabe fazê-lo com maestria, como o Julián Ana (que, aliás, anda um tanto sumido aqui do Rascunho. Espero que volte logo.), mas é impossível ler Fantasmas na biblioteca — A arte de viver entre livros, do bibliófilo Jacques Bonnet, e não pensar nos momentos mais marcantes e na relação que tenho com os livros.

O livro é um ensaio — com certeza irá para esta seção — que traz diversas nuances da relação do seu autor com as obras que compõem sua vasta biblioteca. Fala da busca por exemplares raros, da estrutura requerida para abrigar tantos volumes, da necessidade de classificá-los, das formas de ler (aqui concordo plenamente com o autor, o ideal realmente é estar alongado, como se a posição permitisse ao texto descer melhor pelo corpo)… Em alguns momentos, Bonnet traz um humor sutil e uma ironia que me lembraram Vanessa Barbara — que, aliás, tem diversos textos também falando da sua relação com os livros.

Aparentemente, Fantasmas na biblioteca é despretensioso, e esse é um dos seus grandes méritos. Não é preciso ser um grande livro para ser uma obra preciosa, daquelas que se preocupam apenas com o prazer da leitura, justamente para aqueles que amam os livros. É sempre bom ver algo que amamos sendo tratado com o carinho que Bonnet aparenta tratar seus livros e as histórias que estão ao redor deles. É sempre bom quando algo nos faz lembrar vivamente das nossas próprias histórias.

Texto publicado originalmente na edição 164 do jornal literário Rascunho e no blog Canto dos Livros.

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A Jornada da Heroína

Deusa Inana

Deusa Inana

 

Os contos de fadas e as histórias mitológicas nos habitam de alguma forma. Ao longo da vida, ao sair de um ponto em direção a outro, podemos protagonizar jornadas dignas de heróis, sejamos homens ou mulheres.
Um dos maiores estudiosos no assunto foi Joseph Campbell, uma das inspirações da Biografias & Profecias.

Leiam abaixo uma reflexão sobre uma relação entre a Jornada do Herói e uma possível Jornada da Heroína, neste trecho extraído do livro Jornada do Herói, de Monica Martinez.

“Há diferença na construção de histórias femininas em relação às masculinas? A Jornada do Herói se difere substancialmente da Jornada do Herói?
O fato é que nem Joseph Campbell, o idealizador da narrativa mítica, nem Christopher Vogler, que a adaptou para o cinema, trataram do tema. Nos Estados Unidos, quem se dedicou a esta pesquisa foi a psicóloga Maureen Murdock (1990). A autora teve a oportunidade de questionar Campbell:

         Meu desejo de entender como a Jornada da Heroína se relaciona à Jornada do Herói levou-me a conversar com Joseph Campbell em 1981. Eu sabia que os estágios da Jornada da Heroína incorporavam aspectos da Jornada do Herói, mas eu sentia que o foco do desenvolvimento espiritual feminino era o de curar a divisão interna entre a mulher e sua natureza feminina. Eu queria ouvir a opinião de Campbell. Fiquei surpresa quando ele respondeu que as mulheres não necessitavam fazer a jornada. ´Em toda a tradição mitológica, a mulher é. Tudo que ela tem a fazer é conscientizar-se que está no lugar onde as pessoas estão tentando chegar. Quando uma mulher percebe esta característica maravilhosa, ela não fica confusa com a noção de ser um pseudo-macho´.

 

Murdock ficou aturdida com a resposta, que considerou profundamente insatisfatória… A psicóloga faz uma leitura superficial da fala de Campbell. Em momento nenhum em sua obra ele diz que as mulheres não empreendem a Jornada. Inúmeros mitos citados pelo autor, como o de Inana, a deusa sumérica, têm como protagonistas mulheres, donde se deduz que estas empreendem Jornadas tanto quanto os homens.

De qualquer forma, Murdock desenvolve sua visão da Jornada da Heroína, que tem como ponto forte a observação de que as mulheres que empreendem a Jornada do Herói nos moldes masculinos saem do desafio com um gosto amargo na boca.
Para ela, a mulher não mais precisa provar sua competência no mundo dos negócios, o que já foi consolidado pelas gerações anteriores. Em outras palavras: não é mais preciso se apropriar dos atributos masculinos, como fizeram por uma questão de necessidade as mulheres nas décadas de 1960 a 1980.
O desafio agora é promover a religação com sua natureza feminina…”

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Shakespeare and Company

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Você sabia que uma das livrarias mais lendárias do mundo é a parisiense Shakespeare and Company Bookshop? O que a tornou especial é que desde sua abertura ela hospeda escritores e aspirantes à arte literária que querem passar um tempo em Paris para escrever. A livraria original, aberta em 1919 e fechada pelos nazistas em 1940, abrigou James Joyce, Ezra Pound e Ernest Hemingway. A fundadora da livraria, Sylvia Beach, foi responsável pela primeira publicação de Ulisses, de Joyce. Sua reabertura se deu em 1951, com George Whitman, um admirador de Sylvia que batizou sua livraria com o mesmo nome para seguir a mesma proposta colaborativa.

Diante da ilha onde está a Catedral de Notre-Dame, a Shakespeare and Co. mantém seu charme bagunçado, resistindo ao tempo com sua tradição que a fez famosa no mundo literário.

Veja abaixo o trecho do livro Um livro por dia, de Jeremy Mercer, escritor canadense que contou sua experiência como morador da livraria durante os quatro meses que passou por lá.

“Mesmo assim, George continuou. Primeiro comprou uma bicicleta para facilitar as idas à polícia para os relatórios diários. Depois, transformou o processo em um exercício de criatividade para seus convidados. Em vez de simplesmente anotar as frias informações pessoais, pedia que as pessoas escrevessem um pequeno conto sobre suas vidas e como chegaram à livraria. O hábito foi mantido depois do fim do cerco policial, e hoje George tem um arquivo de maravilhas sociológicas: dezenas de milhares de biografias escritas entre a década de 1960 e hoje, uma vasta pesquisa dos grandes vagabundos dos últimos quarenta anos. A missão de colocar a vida em palavras era uma oportunidade de confissão para muitos, e nas caixas abarrotadas de arquivos há histórias de amor e morte, incesto e vício, sonhos e desilusões, todas com uma fotografia três por quatro colada nelas.

Quando pedi para ficar na Shakespeare and Company, George me falou da tradição e me explicou a seriedade do compromisso. Pela primeira vez, desde quando eu era capaz de recordar, realmente estava nervoso para escrever.”

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Fiódor Dostoiévski

FiodorDostoievsky“Saiu com passo vacilante. A cabeça andava-lhe à volta. Mal se aguentava nas pernas. Começou a descer a escada, apoiando-se na parede. Pareceu-lhe que um porteiro que se dirigia à delegacia lhe dava um encontrão ao passar; que um cão ladrava embaixo no primeiro andar, danadamente, e que uma mulher lhe atirava um rolo de massa gritando para fazê-lo calar. Afinal, chegou ao andar térreo e saiu. Nisso viu Sônia não longe da porta, pálida como um defunto, olhando-o com ar de louca. Ele parou à sua frente. Uma expressão de sofrimento e terrível desespero pairava nas faces da moça. Ela levantou as mãos enquanto um sorriso muito parecido com um ricto lhe torceu os lábios. Raskólnikov esperou um instante, sorriu amargamente e tornou a subir à delegacia.

Iliá Petróvitch tinha-se sentado outra vez em seu lugar e folheava um montão de papéis. À sua frente estava o mujique que acabava de esbarrar em Raskólnikov.

– A-ah! É o senhor, outra vez! Esqueceu alguma coisa? Que tem?

Os lábios azulados, o olhar fixo, Raskólnikov aproximou-se vagarosamente de Iliá Petróvitch. Apoiou-se com as mãos na mesa onde estava sentado o tenente, quis falar, mas nenhuma palavra pôde proferir, soltando apenas sons inarticulados.”

Trecho do livro Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski.

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Antoine de Saint-Exupéry

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Antoine de Saint-Exupéry

“Meditava sobre minha condição, perdido no deserto e ameaçado, nu entre a areia e as estrelas, afastado por um longo silêncio dos pólos de minha vida. Sabia que haveria de gastar, para voltar às minhas terras, dias, semanas, meses, se nenhum avião me encontrasse, se os mouros não me massacrassem no dia seguinte. Não possuía mais nada no mundo. Era apenas um mortal perdido entre a areia e as estrelas, consciente da única doçura de respirar…

Contudo, eu me descobria cheio de sonhos. Sonhos que me vinham em silêncio, como água da nascente, sem que eu compreendesse, a princípio, a doçura que me invadia. Não houve imagens nem vozes, mas o sentimento de uma presença, de uma ternura próxima, que já adivinhava. Então comprendi e me abandonei, de olhos fechados, aos encantamentos da memória.”

Trecho do livro Terra dos homens, do aviador e escritor Antoine de Saint-Exupéry.

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Curso Escrita Total em São José dos Campos

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Ryszard Kapuscinski

“Como o andamento e a forma das saudações têm extremo significado para o futuro do relacionamento entre as pessoas, aqui [em Kumasi, cidade de Gana] se dá muita importância à maneira como eles se processam. O mais importante é demonstrar, de saída, logo no primeiro momento, sincera alegria e enorme cordialidade. Começamos por estender a mão. Mas não de modo formal, moderado, superficial, e sim exatamente ao contrário, como se fôssemos aplicar no outro um golpe enérgico, como se, em vez de lhe apertar calmamente a mão, quiséssemos arrancar-lhe o braço. Se ele mantém a mãe aberta e no mesmo lugar, é que, como conhecedor das regras de saudação, também está tomado pelo ímpeto de aplicar o mesmo golpe e arremessar a mão em direção à nossa, com toda força. As extremidades do corpo de cada um, carregadas de enorme energia, encontram-se no meio do caminho e, chocando-se com grande impacto, reduzem a zero as forças contrárias. Ao mesmo tempo que as mão se projetam velozmente para se encontrar, soltamos a primeira de uma série de gargalhadas. Significa que estamos felizes por termos nos encontrado e com boa disposição um para o outro.

Em seguida, vem uma série de perguntas e respostas casuais: ‘Como você está?’, ‘A saúde está boa?’, ‘Como vai a família? Todos com saúde? E o vovô? E a vovó? E o titio? E a titia?’ etc. etc., pois as famílias aqui são grandes e ramificadas. As boas maneiras pedem que cada resposta favorável seja acompanhada de uma prazenteira risada, que deverá provocar uma semelhante, ou então uma homérica gargalhada em quem fez a pergunta.

Freqüentemente, podemos ver duas ou mais pessoas paradas na rua contorcendo-se em risos. Não significa que estejam contando piadas. Estão apenas se cumprimentando. Quando os risos cessam, significa que a cerimônia de cumprimentos terminou e que se pode, então entrar no mérito da conversa, ou que o ritual foi interrompido para que os participantes possam dar um merecido descanso às cordas vocais”.

Trecho de Ébano – minha vida na África, do polonês Ryszard Kapuscinski.

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Jostein Gaarder

“E enquanto fiquei parado ali, observando o céu ir mudando de cor, primeiro cada vez mais vermelho e depois cada vez mais claro, experimentei uma coisa que jamais havia experimentado antes; um sentimento que desde então nunca mais me deixou: lá estava eu na frente da janela da cabine de um navio, eu, um ser enigmático, vivo, mas que apesar disso nada sabia de si. Experimentei a sensação de ser uma criatura viva num planeta vivo dentro de uma Via Láctea. Talvez já tivesse consciência disso antes, pois esse era um tema que já tinha sido abordado várias vezes dentro da educação que eu vinha recebendo. Mas aquela era a primeira vez que eu sentia aquilo tudo por mim mesmo. E aquele sentimento se instalou em cada célula do meu corpo.

Percebi o meu corpo como algo estranho, desconhecido. Como era possível que eu estivesse ali, na cabine de um navio, pensando em todas aquelas coisas estranhas? Como é que no meu corpo cresciam a pele e as unhas? Tudo isso para não falar dos dentes! Como era possível que esmalte e marfim pudessem crescer dentro da minha boca? Eu não conseguia entender que essas partes duras do meu corpo eram eu mesmo. Mas sobre essas coisas… bem, sobre essas coisas as pessoas só pensavam quando tinham de ir ao dentista!

Não conseguia entender como as pessoas conseguiam viver neste mundo sem se perguntarem, ao menos de vez em quando, quem eram e de onde tinham vindo. Como era possível fechar os olhos à vida neste planeta, ou então considerá-la “evidente”?”

Trecho de O dia do Curinga, do norueguês Jostein Gaarder, autor do célebre O mundo de Sofia.

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