Agora é hora de alegria

Por Sylvia Beatrix

Tenho um belo CV.

Meu curriculum vitae contempla dois casamentos, dois filhos, dois enteados, duas sogras, cinco cunhados, uma irmã, sete tios, um padrasto, quatro avós, catorze primos e aproximadamente dois mil, quatrocentos e noventa domingos. Por isso, me sinto habilitada a dizer, assim de chofre, que almoço dominical familiar não tem cor, nem credo: c’est tout la même chose.

Antes de me tornar uma das protagonistas de cenas familiares óbvias, como apertar entusiasticamente bochechas rosadas de sobrinhos exclamando “Como você cresceu!”, e na seqüência emendar com o famoso “precisamos nos ver mais vezes”, fui parte integrante do casting desta peça chamada “Família” que está em cartaz há mais tempo que a peça de teatro “Trair e Coçar”.  Sim, pois eu tenho 48 anos e a peça está em cartaz há 25.

É bem verdade que cenário, figurino e alguns atores mudaram ao longo do tempo, mas o enredo dominical passou por pouquíssimas revisões. Alguns modismos foram incorporados, coisa que ”       ninguém merece” e está longe de ser “chique no urtimo”, mas desde que me entendo por gente e vejo o Tarcísio Meira fazendo papel de galã às oito da noite, esta sutil reciclagem acontece. Porém, em nenhuma destas revisões – uma só vez que fosse – incluiu a correção dos erros de português cometidos pela famiglia. Isso, nem a pau, Juvenal – a manutenção de “um chopps e dois pastel” é uma questão de honra! Hoje, até vejo um certo charme nisso, mas quando era adolescente – que vergonha!

A principal diferença entre a tradicional lasanha bolonhesa da nonna Karin – minha mãe – com massa caseira e molho de tomate pelado italiano, cozido por horas a fio até chegar ao ponto ideal para só então receber as mini-micro-minúsculas “porpetas”, enroladas uma a uma na noite anterior enquanto a conversa flui com a TV da cozinha ligada, e o sarapatel de mãinha  – Dona Léa, minha sogracarregado de coentro, hortelã e salsinha, miúdos de porco milimetricamente cortados, que também é preparado por horas intermináveis, está no cheiro do palco de quem preparou a iguaria, ou seja, a cozinha. Entram em cena aqui, as fiéis escudeiras, ajudantes do lar, companheiras de vida – Dilma, Maria ou Luzia,  – que há muito tempo acompanham todos os personagens dessa nossa história pessoal. Choram com os nascimentos, sentem as partidas, mas chova ou faça sol, estão com o script na ponta da língua.

Pode ser que, pelo fato do movimento de emancipação feminina ter sido iniciado na terra do fast food e bem longe dos fogões, alguns belos sutiãs foram queimados à toa. O feminismo não alcançou a sala de casa. Quando a comida ansiosamente aguardada e fumegante chega à mesa em travessas pirex, envoltas por panos de prato e acompanhadas dos gritos de “tá quente!” ou “abre espaço na mesa!”, pais, avós, genros e cunhados se aboletam ao redor da mesa e esperam para serem servidos. As amélias entram em cena. Simone de Beauvoir rola de raiva no túmulo. Uma porção disso, aquilo não quero, pouco mais de molho aqui, arroz não precisa,  são distribuídos em cada prato. Sorrisos, acompanham o cardápio.


Assim que esta etapa é concluída, mães, avós, noras e cunhadas partem para a próxima etapa que é servir os filhos. Esta é muito mais rápida, as crianças estão entupidas de salgadinhos diversos, dizem não à praticamente tudo que é oferecido e o que querem é brincar. Ritual terminado é chegada a nossa vez. Sim, eu perpetuo este ritual. Esse papo de mulheres e crianças primeiro, só em naufrágio de navio.

Tanto na família ítalo-paulistana  (a minha família direta) quanto na carioca-nordestina (a família de meu marido),  a quantidade de comida servida alimenta os meus, os teus e os nossos. Pode incluir as  torcidas do Fluminense e do Palmeiras. E ainda sobra para levarmos para casa.

Campeonato paulista, carioca, baiano, italiano e espanhol; peteca, bolinha de gude, automobilismo e tênis, são os temas para a conversa masculina, enquanto a novela, o casamento real britânico, botox e o melhor produto para cabelos ressecados, permeiam o bate papo feminino. Assuntos comuns aos dois lados desta moeda são o transito nas cidades, a falta de tempo, o cenário político nacional, cultura em geral e as manchetes do momento. Se uma discussão mais calorosa não aconteceu na hora do futebol, pode ser que aconteça na hora do licorzinho com café.

Na proporção semanal de seis “boa noite” do William Bonner para um “vamos sorrir e cantar” de Silvio Santos é que esta e outras histórias são lentamente construídas. O “almoço de domingo” pode ter o mesmo jeito, muitas vezes os mesmos participantes, mas cada um deles, constrói a minha história.

Categorias: história de vida | Tags: , , , , | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Agora é hora de alegria

  1. Sylvioca, você retratou tão bem e com humor tão gostoso e leve, que parece até que já estive neste almoço de domingo.kkkkkkk
    Sem contar que, de alguma forma ou de outra, algumas cenas são muito comuns nas familias brasileiras. Que bom que você tem essa grande familia para reunir!!!! Bjos

  2. que delicia de ler!!!parabéns, deve imaginar que em minha familia tudo, tudinho é muito igual….só que vc não colocou a outra etapa…os homens para TV e as mulheres para a pia!!bjos

  3. Universal, dinâmico, doce e bem-humorado! Me deu saudades dos dias em Lucélia.

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