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Morte e Vida, Saudade

Por Regina Magalhães

Era ainda cedo quando eu estava na Alameda Santos e, mesmo com o carro em movimento, inconsequentemente resolvi olhar o Facebook no celular. Sincronicidade ou não, para minha surpresa havia uma mensagem postada há minutos por minha amiga Karen: No puedo hablar mucho solo decir que hoy se murio mi hija Nathalia de 8 anos, despues de tanta lucha su cuerpo no aguanto y se murio como los angelitos, durmiendo. Se fue mi reina, mi amor y estoy segura que ella sera feliz ahora y descansara en paz. Gracias a todos los amigos que nos ayudaron todos esos anos de lucha. Estais en nuestros corazones y Nathalia lo sabe. Mi amor por ella sera eterno.

Meu coração disparou e imediatamente comecei a chorar, sentindo-me impotente e desejando estar ao lado de Karen e seu marido Javier, da pequena Sofia, de Dona Pilar e Seu Jovino – os avós. Por que não liguei mais? Por que não lhe escrevi sempre? Fui tomada por dor e culpa.

Tudo que pude fazer foi deixar-lhe uma resposta. Quis cancelar meu dia, deixar a vida de lado e, antes de me desmantelar com aquela notícia, uma enxurrada de lembranças invadiu minha mente.

Antes de Nathy vir ao mundo, pude ver o barrigão de sua mãe, quando estive em Oviedo para me recuperar do Caminho de Santiago, em 2004. Dormi no seu futuro quartinho e ansiosamente esperava a notícia da sua chegada, quando eu já estava de volta ao Brasil.

Então, ela nasceu e foi diagnosticada por uma sofrível doença. Os médicos a desenganaram, o padre do hospital já falava em extrema unção. Batizaram-na às pressas, vestindo-a com o um precioso vestido amarelo que pulsava o quão carinhosamente tinha sido feito pela madrinha de Karen. Quando sua morte parecia uma certeza, a pequena surpreendeu a todos, tirando ela mesma seu respirador e sobrevivendo. Começava aí uma história de amor e luta pela vida.

Quando Nathy foi para casa com seus pais, a relação de mãe e filha era a de um anjo cuidando de outro. Nunca ouvi Karen se lamentar. Nunca. Sempre a vi sorrindo. Sempre a vi conversando com a filha e captando suas respostas, apesar do silêncio. Karen abraçou a maternidade com leveza, alegria e com uma força interna esplendorosa para carregar os pianos da alma. De todas as mulheres que conheço, ela é um dos exemplos mais vivos de amor e, por isso, coragem.

Conheci uma criança muito maior que sua doença ou que seu limitado corpinho. A primeira vez que segurei Nathalia nos braços, ela suspirou e me apaixonei de vez. Ela irradiava uma luz especial e todos ao seu redor lhe deixavam brilhar. Ela refletia a luz do amor de seus pais. Sua boquinha e seu cabelo cacheado davam-lhe um ar de bonequinha. Não era raro alguém estranhar e se constranger com o modo que Karen e Javier a apresentavam ao mundo. Nunca sucumbiram à doença. Nathy ia a todos os lugares, passeava, viajava e ia para a sua escola.

Estava sempre impecável. Seu banho era um ritual que dava gosto presenciar. Primeiro porque algo em sua expressão mudava, relaxava, quando ela era colocada na água. Segundo, pelo banho de cremes, toques e cuidados que Karen amorosamente lhe aplicava. Depois, o penteado, a fivelinha… Cenas de amor que não consigo esquecer.

As complicações eram muitas e a desesperança dos médicos, imensa. Karen percebeu que não eram os doutores que decidiriam sobre o momento de passagem de sua filha, mas a própria Nathalia saberia sua hora.

Oito anos se passaram desde que Nathy chegou ao mundo e no dia 13 de novembro de 2012, ela faleceu dormindo, em casa, como um anjinho. Por mais que esperássemos que isso acontecesse um dia (como acontecerá com todos nós), a notícia da sua partida deixa uma enorme saudade.

Querida, você me trouxe muitas lições e agora vive no coração de todos que a amaram, viveremos uma saudade compartilhada. Só posso reverenciar a vida por poder conhecê-la e ter sua mãe como grande amiga.

Assim, fui tomada por amor e gratidão. Enxuguei as lágrimas, encarei meu dia e segui firme para continuar contando histórias de vida, mesmo que a morte faça parte delas.

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