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Quando entrar setembro

Por Sylvia Beatrix Pereira

Na próxima “encadernação” quero nascer vaca leiteira e só parir bezerra!

Um sorriso se abre em flor me convidando a conhecer seu jardim logo depois de me fazer rir com esta frase.  É a primeira pessoa que conheço apaixonada por vacas. Tem uma coleção delas em pelúcia, pijamas estampados, bules, xícaras, açucareiros. “Elas são tão lindas!”.

Estou no Centro Paulus, em Parelheiros, setembro de 2010, no meio do nada de acordo com o GPS do carro. No extremo sul da cidade de São Paulo, bugios, borboletas e vagalumes são ouvintes curiosos. Guapuruvus, orquídeas, palmeiras, bromélias e raros espécimes de pau-brasil me cercam e acolhem. As buzinas, o cinza e a pressa, não tem permissão para entrar neste santuário. O tempo nos brinda com sua presença. Tenho uma xícara de chá nas mãos e a companhia de Regina. Acomodadas, ganho novo sorriso.

Aparentemente estamos só nós duas. Engano. Regina é uma trupe e seu nome, majestoso: Regina Marta Valeria Puccinelli Rapacci Kirst Magalhães. Ufa!

A prosa que iniciamos é boa, tem formato de poesia. Isso é muito novo para mim, sou concreta e linear; Regina, abstrata e curvilínea. Um passeio! A pessoa que está diante de mim com seus olhos castanhos, cabelos curtos e vivacidade de moleca, lapida o que vai dizer com apreço e cuidado. Tem por ofício as palavras e como dom, a escuta. Ela faz com que perto dela eu me sinta em casa.

Regina passa seus dias entre os santos, percorrendo a Rodovia Tamoios, colhendo relatos de vida, experiências que serão compartilhadas e memórias que serão eternizadas para escrever livros e semear aprendizados. Tarefa hercúlea para qualquer um, ainda mais se for casado. “Muitas vezes tomo café da manhã em São Sebastião, almoço em São José dos Campos e termino o dia em São Paulo”. Isto só é possível pois tem como parceiro de vida o Alex e como fiel escudeira Meg, a labradora. Eles são as raízes de sua vitalidade e o apoio para construir seus sonhos. Despedir-se é sempre difícil, não raro com lágrimas. Seus amores, a casa e a brisa do mar ficam à espera do novo reencontro. Assim como ela.

A xícara de chá ainda não terminou e sinto como se fôssemos amigas de infância. Em nosso bate papo, descobrimos que acreditamos em caminhos e pessoas e apresentamos, uma à outra, frações de nosso passado. “Cada um de nós é o herói de sua própria jornada e toda história merece ser contada. Essa é a minha inspiração”. E como ela faz isso bem! A começar pelas histórias de sua família, onde consegue misturar dor com humor, pitadas de carinho e doçura, colheradas de respeito e admiração e a dose certa de sofrimento e aprendizado.

Fala de D. Nena com admiração e lágrimas nos olhos. “Recebi muito amor”. Sente saudades do abraço materno, reconhece os ensinamentos passados e o amor recebido. Mas sempre falta uma palavra…

Seu Lelé, permanece firme mas não tão forte, entre a Santa Casa de Lucélia e os cuidados da filha mais velha, Ana Maria Javouhey. Seu pai continua criando causos, dando trabalho e arrancando gargalhadas, vivendo seus 80 anos até a última gota! Terá sido com eles que Regina aprendeu que a vida não segue script?

A juventude de fartura e abundância poderia ter criado uma mulher com valores questionáveis. Nada mais longe da verdade. A jovem que ganhou a contragosto um Chevette completo aos 18 anos e não precisava se preocupar com a cor do saldo em sua conta corrente, é generosa, acolhedora e consciente de suas responsabilidades. Consigo e com os outros.

Tomo emprestadas as palavras de Manoel de Barros para dizer que Regina voa além de suas asas. Já percorreu caminhos sagrados como o de Santiago de Compostela, ficou à deriva em águas brasileiras e hoje dá cambalhotas e faz acrobacias no circo. Em seu coração há espaço para palhaços, como o Fred, yogues que tocam a cabeça com os pés e são lindas, como a Silvia Noara, cervejeiros e são paulino roxo, como o Rodrigo, e interculturalistas em busca de poesia, como eu. Carma, flor, vai dar tudo certo!”.

É difícil explicar o que fez com que, dentre 20 e tantas pessoas que estavam juntas pela primeira vez, uma em especial tenha me chamado a atenção. Nem mais bonita nem mais feia, nem mais alta nem mais baixa, nem mais magra nem mais… bom, talvez aqui tenha alguma característica particular, mas certamente não foi o que se destacou para mim. Se fosse para escolher uma coisa só, ficaria com o sorriso, solto, fácil, às vezes nublado, sempre encantador.

Alguém que sorri em flores, só poderia ter nascido em setembro.

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