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Nascença

Fred Linardi

Ao descer pela rua depois de sair de um ônibus que me deixou na Avenida Santo Amaro, na altura da Vila Olímpia, caminhei pelo trecho de volta para casa remoendo dezenas de ideias que passavam pela minha cabeça. Não conseguia entender minha indignação. Afinal, sair do interior para morar em São Paulo era para causar a inveja em muitos. Só que, naquela primeira semana de agosto, nada sinalizava que a experiência seria tão prazerosa quanto aparentava.

Era o ano de 2001 e minha vida começava a mudar, mesmo sem que eu percebesse com clareza. Havia passado no vestibular de jornalismo do Mackenzie. Meu pai vibrou com a ideia do caçula morar em São Paulo. Meu irmão mais velho, Luciano, já estava por aqui há uns meses. Com minha vinda, dividiríamos o apartamento de um prédio que ficava perto de onde ele estudava (e a 10 quilômetros da minha faculdade). Eu, com menos de um ano de experiência no volante, vim para São Paulo sem cogitar em dirigir pelo labirinto de ruas ocupadas por motoristas loucos e irresponsáveis.

As proporções da cidade me fascinavam. Tudo era imenso, os prédios diferentões, as pessoas… se via de tudo na rua. Se via de tudo também no penoso trajeto que eu teria que fazer diariamente, de pé, na linha de ônibus que ia do Terminal Santo Amaro para o Terminal Princesa Isabel. O itinerário sugeria que todos, sem exceção, chegariam a seus destinos realmente em fase terminal. Era difícil encontrar espaço para simplesmente entrar no coletivo. E, no meu ponto de descer – mais ou menos no meio do percurso – era difícil sair para a calçada libertadora. Era inconcebível para alguém do interior a ideia de levar mais que 15 minutos para fazer um percurso de 10 quilômetros. E eu no ônibus, de pé.

Na primeira semana de aula tivemos que ler um texto chamado O acaso dos nossos encontros seria determinado? – um capítulo de um livro chamado Os alimentos do afeto. E eu só pensava que diabo fazia numa metrópole, onde as pessoas pareciam não se encontrar, apesar de dividirem espaços de forma tão invasiva.

Depois de ser jogado para fora do ônibus, descer a rua ruminando pensamentos negativos, cheguei em casa e deitei na cama atônito. As perspectivas não tinham graça. Fazia tempo que eu não chorava. Talvez por aquele motivo até fosse a primeira vez. Não sentira isso nem mesmo quando passei onze meses fazendo intercâmbio, longe de todos que levei 17 anos para conhecer. A impressão que tive ao mudar para a capital foi a de ter tudo e nada ao mesmo tempo. A proximidade e a distância. Nunca me sentira tão isolado, mesmo estando apenas pouco mais de 100 quilômetros da minha cidade. A presença e ausência. Meus amigos pareciam estar para trás. E, de certa forma, ficaram. Foi difícil de entender, mas voltar seria algo insensato.

Hoje, ao olhar pela janela do meu escritório, no apartamento onde moro, ainda em São Paulo, vejo o cenário vibrando com o movimento lá fora. A cidade que pulsa trabalho tem sido assim há décadas, mas quando a vejo através do vidro, me remete aos últimos onze anos que se passaram, o tempo que assistiu à minha chegada nesta cidade que, apesar dos pesares, não me deixa partir. Minhas inquietações ainda existem, mas – ainda bem – não são mais as mesmas.

As vistas das janelas também mudaram. Saí da Vila Olímpia para um simpático prédio na Rua Bela Cintra. Passei a segunda metade da faculdade indo às aulas a pé, sentindo-me o mais privilegiado dos seres por este motivo. Até que, no último semestre, constatei que as coisas faziam sentido nas situações mais absurdas, quando conheci minha futura namorada, hoje já minha esposa, pela janela do meu quarto. Eu, do bloco B, acenei para uma garota de um dos apartamentos do bloco A. Ela respondeu e foi assim que outra história começou. Hoje nossa narrativa continua em outro prédio. Dividimos o mesmo espaço, que nos oferece outra vista.

Dentro de casa, escrevo meus textos para os livros e algumas revistas. A janela é outra. A cidade é a mesma. Depois de tantos anos, sei que fugir disso tudo não seria a solução. As andanças não entendem o que é uma fuga, pois se fugimos para por o fim numa história, acabamos construímos novos pontos de partida.

É uma sorte para todos nós os ângulos se mudarem, as histórias se fazerem e os encontros, de fato, se concretizarem. Estaria tudo determinado?

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Encontros e reencontros

Um perfil de Silvia Noara Paladino, uma de nossas escritoras, por Fred Linardi, um de nossos escritores

Silvia deitou-se naquela cama pela primeira vez em sua vida e confirmou a sensação de estar no lugar mais longe de sua casa. Ao invés do desconforto que um quarto desconhecido pode trazer, sentiu-se acolhida. Não o acolhimento por ser recebida na casa de uma amiga, num país distante. Esta sensação estava presente também, mas não foi isso que a tocou ao ser abraçada pela cama, cansada depois de mais de 20 horas que a levaram do Brasil à Tailândia. A chuva que batia pela janela e o vento que fazia dançar as folhas das árvores pareciam entender a jovem jornalista. Era sua primeira noite em Bancoc e a última página de um capítulo que acabou ali, assim que seus olhos se cerraram para o dia seguinte.

Era agosto de 2007 quando Silvia Noara Paladino fazia sua primeira viagem para o lado oriental do mundo. Atraída pela cultura cujas raízes começara a estudar nas aulas de yôga, rumou ao encontro daquilo que esperava, mas também daquilo que pudesse surpreender seus olhos castanhos esverdeados. Pois as viagens, ela sabia, tinham o poder de transformar, de nos fazer encontrar com outros que vivem num mundo diverso, mesmo estando no mesmo planeta. De fazer cada um encontrar-se consigo mesmo, ainda que seja um alguém que nunca se refletiu no espelho todas as manhãs, quando nos levantamos com a cara do sonho que tivemos horas atrás.

A consciência mais sólida que Silvia tinha era de que ela estava lá por decisão própria. Havia se surpreendido ao encontrar sua amiga Ligia Rabay, que morava em Bancoc há dois anos, e visto o quanto ela havia mudado. Pensou em como a própria vida muda de repente, como acontecera com Arlindo Calamari, seu padrasto, que meses antes sofrera um AVC e passou a encarar uma longa e incerta fase de reabilitação.

Pensou no namoro que decidira acabar recentemente, depois de cinco anos de duração, apesar de todo o bem que ele fazia para ela e do quanto ele havia sido importante naqueles meses em que a fragilidade do padrasto fizera sua casa reaprender a viver. Mas Silvia pensou e repensou. A comodidade não era o caminho a ser seguido em assuntos de amor.

Diante de toda a perenidade da vida, comprovou que viajar é o melhor investimento. Mudar de perspectiva é também proporcionar uma série de mudanças interiores. Mais do que isso, é um atestado da liberdade que indica o significado de seu segundo nome, Noara, na língua tupi-guarani. Liberdade para seguir para onde for, como se não existisse patriotismos ou nacionalismos – conceitos tão frágeis quanto o risco de uma fronteira no mapa. Como se o ontem e o hoje se encontrassem além das páginas de um guia turístico.

A filha única, neta única e sobrinha única que foi criada pela mãe e pelos avós despediu-se aos prantos. A viagem que faria por 25 dias fazia sentir uma saudade diferente, de algo que não sabia o quê, mas que precisava ficar para trás. Ao despencar-se na cama de hóspedes de sua amiga, em Bancoc, a chuva que caiu lá fora da janela parece ter varrido essa Silvia recém-chegada.

Nos dias que se seguiram, encontrou nas ruas da Tailândia pessoas amáveis, com uma pureza diferente, um ritmo que o ocidente talvez nunca tenha compreendido o bastante. Alongou sua viagem para a Índia, atraída por algo que chama, sem muito se identificar até o momento em que o viajante bota os pés no chão empoeirado do país de Ganesha, Shiva, Lakshmi. Seja na tranquilidade tailandesa ou no meio do caos indiano, viajar sozinha a fez usar seus sentidos de forma mais aguçada. Entre sustos, surpresas e apuros, voltou ao Brasil já pensando nas próximas.

A sala de redação no último andar de um sofisticado prédio na Avenida Luiz Carlos Berrini, em São Paulo, a relembrava de seus deveres como jornalista. Assim que voltou de férias, foi informada que passaria a ser editora da revista que cobre os maiores avanços da tecnologia. Produzia matérias e organizava os fechamentos quinzenais, muitas vezes deixando sua mesa de trabalho horas depois que a lua já vigiava a cidade que não para.

Também viajou a trabalho. Nova Iorque, Las Vegas, Puerto Vallarta, Buenos Aires, Berlim. Planejou outras viagens de férias, como Grécia e Turquia. Foi na antiga terra do Império Otomano que, em 2011, teve sua segunda grande percepção sobre essas jornadas. Precisamente na Capadócia, onde encontrou casas esculpidas em meio às montanhas, na própria pedra desses acidentes geográficos que o homem soube usar sem destruir. Datadas da época de Cristo, quem olhasse por suas janelas há dois mil anos talvez o tenha visto passar por lá. Desde então, o cenário de cidades como Göreme pouco mudou, ao menos em sua essência que ainda se sobrepõe ao turismo sem conglomerações.

De volta ao trabalho, deparou-se com mais pautas. Ao final do ano passado, Silvia deu mais um passo para seguir em direção ao próprio encontro. Em seis anos de casa, decidiu fazer o seu traslado mais curto: era o momento de descer o elevador do prédio da editora e seguir para um novo rumo profissional. Precisava produzir outros escritos.

Agora em 2012, sua mãe, Maria Inês, sentiu que era o momento de se deixar levar a um destino também. Tudo ao seu tempo, aguardou a adaptação de seus cuidados ao marido. Ao lado de sua mãe e irmãos, rumará à região de Castellabate, na Itália, onde estão suas raízes familiares. Silvia, claro, acompanhará a incursão pelo interior do país. Outros interiores serão visitados.

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