Ficção

Na lona

Por Rodrigo Casarin

Direto, cruzado, cruzado. Boa! De novo. Mais uma. Ótimo. Chuta embaixo. Mais força. Com a esquerda. Isso! Muito bom, guerreiro. Senta lá e relaxa, tá chegando sua hora.

Joel termina o aquecimento e senta em um banco. Enfim, o momento se aproxima. Ignora praticamente todos os companheiros que estão no vestiário, só não consegue esquecer da existência de um, que agora lhe passa uma pomada que aquece ainda mais o seu corpo, desperta seus músculos, incandesce sua vontade de voltar a vencer.

Está ali depois de cinco anos. De volta aos ringues, de onde nunca deveria ter saído. Lembra de como foi duro ter que deixar o muay thai para trás e ter que trabalhar para ajudar sua mãe a comprar os remédios. Deixou a pizzaria, onde entregando as redondas de moto ganhava 400 reais por mês para arrumar um trabalho de verdade.

Entrou em uma empresa de cobrança por telefone. Trabalhava na administração. Passava o dia inteiro em frente ao computador. As horas extras não remuneradas faziam parte de sua rotina e devoravam o tempo que seria dos treinos e da academia. Começou recebendo 800 reais, mas, com uma dedicação militar, não demorou para que esse valor  aumentasse. Passou a ganhar bem. 1500 reais todo mês na sua conta. Além disso, carteira assinada, vale-transporte, vale-refeição e metade do plano de saúde bancado pelo empregador. No bairro pobre onde morava havia quem o chamasse de playboy, ainda que a grana mal desse para os remédios.

Agora que sua velha morreu, não precisa mais se preocupar com essas coisas. Deixara de fazer as horas extras não remuneradas e voltou para os treinos. Não demorou para que retornasse ao peso antigo – havia engordado apenas alguns poucos quilos nesses anos. Não demorou também para que fosse demitido. O gerente alegara que Joel estava desfocado e não se aplicava mais aos afazeres como antes, o que ia contra a filosofia da empresa, que queria que seus colaboradores se empenhassem ao máximo, para que pudessem crescer a cada dia como pessoa.

Conseguiu voltar para a pizzaria, para o mesmo cargo de antes. Tinha o dia inteiro para treinar, e como gostava de fazer aquilo. Como bater em um saco de pancadas lhe fazia falta, como era bom tomar um soco bem dado e continuar inteiro.

Depois de dois meses de treinos intensos, teve a certeza de que era o momento de voltar aos ringues, seu eterno escritório. O treinador ficou com dúvidas, mas não conseguiu fazer com que Joel adiasse o retorno. A vontade era maior do que tudo, e a superioridade em relação aos outros lutadores da academia o enchia de esperanças.

De cabeça baixa sob uma toalha, concentra-se no vestiário. Seu parceiro já terminara de lhe passar a pomada. O forte cheiro de cânfora se mistura com o suor dos outros lutadores e o fedor das luvas e ataduras. Vai até o espelho e confere seu cavanhaque loiro, que esconde uma cicatriz que ganhou ainda na escola, em uma briga por causa de um jogo de futebol. O cabelo raspado e os olhos castanhos profundos o deixam com uma aparência que impõe respeito e causa repugnância a alguns.

Seu treinador o chama. Havia dado pouca atenção ao já experiente Joel. Gastava mais tempo consolando os outros pupilos que saíam quase todos derrotados do ringue. É a hora.

Joel se sente pronto. Veste as luvas nas mãos já firmemente envolvidas com ataduras brancas. Um outro colega passa vaselina no seu rosto. As cordas brancas encardidas e pretas desbotadas que delimitam a área de combate o esperam.

Ao sair do vestiário, percebe que o ginásio está quase vazio. Não mais do que 50 pessoas. O sol forte sobre o telhado metálico transforma o lugar em uma estufa. Olha para o seu adversário já no ringue. Joel sabe pouco sobre ele, apenas que é um cubano de nome complicado que luta por dinheiro. Qualquer dinheiro. Serve até os 30 reais que um fabricante de luvas que patrocina o evento dará para o vencedor de cada duelo. Esses lutadores são os mais perigosos, animais famintos em busca da sobrevivência. Também sabe que ele é um tanto menor e está no limite inferior do peso para a categoria.

Olhos nos olhos, não trocam uma palavra. O juiz anuncia cada um dos combatentes. De bermuda vermelha, com 30 vitórias em 30 lutas, sendo 17 delas por nocaute, Joel. De bermuda azul, com 42 vitórias em 68 lutas, sendo 13 delas por nocaute, o negro de nome complicado. Joel respira confiança e inspira força. O cubano dá as costas e vai até seu canto.

Joel também vai para o seu lugar. Lembra mais uma vez da importância do momento. Queria que toda a sua vida tivesse sido assim. Que não tivesse perdido todos aqueles anos. Que o grande campeão que é não estivesse apenas nos antigos números, mas nas constantes façanhas. Não ouve uma palavra sequer do que o seu técnico diz. Ninguém precisa lhe dizer mais nada, ele sabe como fazer.

Os dois tomam os últimos goles d’água, colocam o protetor, recebem um tapa nas costas de seus treinadores e voltam para o centro do ringue. Conselhos de praxe do juiz. Soa o gongo. A contagem regressiva de três minutos dispara. As luvas mal se tocam num comprimento que se pretendia amistoso. O embate começa.

Pouco rodam e Joel toma a iniciativa. Aproveita o seu tamanho e tenta acertar com a perna o cubano, que esquiva bem do golpe. Reduz a distância e é atacado por uma rápida sequência de mão, mas também consegue escapar. Ambos se estudam, trocam olhares que almejam ser intimidatórios. O cubano tenta tomar a iniciativa, mas sem uma total confiança acaba recuando após acertar um cruzado na luva de Joel e tomar de volta um chute na coxa esquerda. Dançam mais um pouco, quase bailam. Atraem-se, repelem-se. Estão sempre na mesma direção, mas sempre a uma boa distância. Tentam mais algumas investidas de nenhum sucesso.

Joel percebe que o cubano utiliza pouco as pernas, apenas o suficiente para que o mantenha afastado, nunca para efetivamente atacá-lo. Em contrapartida, o estrangeiro tem um excelente jogo de cintura e uma combinação de golpes com as mãos raramente vista em lutadores que também utilizam os membros inferiores como armas. Boxeador que fugiu de Cuba, pensa Joel assim que consegue se esquivar de uma sequencia de golpes.

Sentido-se provocado pela audácia do adversário em atacá-lo com tanto ímpeto, Joel parte para cima do cubano feito um bárbaro. Sequer ouve o seu treinador gritando para tomar cuidado com a guarda. Acerta um chute com a direita na coxa do adversário, que acusa o golpe. Solta um cruzado com a esquerda que é defendido pelo oponente, que também se esquiva de um direto. Quando Joel encurta a distância para tentar usar seus joelhos ossudos, o negro se afasta e roda pelo ringue. Falta um minuto para o final do primeiro assalto. Joel o persegue. Tenta uma abordagem clássica com jab e direto, facilmente defendidos. No que o adversário dá um passo para a direita, solta um cruzado com a esquerda que vai de encontro ao maxilar do inimigo. O cubano se esquiva com um pêndulo rápido e solta o braço direito. Acerta a orelha de Joel que mal tem tempo de perceber o cruzado de esquerda que entra em seu baço seguido de um potente gancho que acerta em cheio o seu queixo e faz seu cérebro tremer como uma britadeira. O baque seco na lona arranca urros primitivos dos presentes. Joel nada escuta.

Quando começa a voltar a si ouve o juiz já no final da contagem. Vem à sua cabeça a imagem de sua mãe morta, no caixão. Fecha novamente os olhos e sente o cheiro forte do piso misturado com o fedor repugnante da derrota. Faltavam 15 segundos para o final do primeiro assalto quando Joel se tornou um derrotado nos ringues. Teria pizzas para entregar na mesma noite.

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O texto acima é uma peça de ficção

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