Caçamba de Entulhos

Por Frederico Boldrin

Mudar-se, às vezes, é tão difícil quanto mudar um hábito. Mudei-me de apartamento há duas semanas e, além do fato de ser muito trabalhoso, notei que acumulamos coisas que – como sempre pensamos – um dia nos serão úteis. Acontece que quase nunca estamos certos. É preciso mudar o costume de acumular objetos, pois corremos o risco de nos tornar aquilo que guardamos: fúteis.

E é preciso também lembrar que entre útil e fútil, dependendo do ponto de vista, não há muita diferença.

Além dos inúmeros itens como enfeites, papéis, capa de óculos sem óculos e roupas velhas, vi-me, no novo apartamento, rodeado por livros. Foi difícil, para não dizer doloroso, me livrar de alguns deles. “Será que me livro dos livros?”, perguntei-me. E no fim, fiquei livre deles. Carreguei-os na mochila e fui a um sebo para doá-los, e assim tirei um enorme peso das costas. Alguns deles não me agradaram, outros simplesmente não havia lido e outros comecei a ler uma dezena de vezes, mas sempre parava no mesmo lugar. Acumulavam um espaço que eu já não tinha. Pensei até em adquirir um leitor de livro digital, mas, de todos que manuseei até agora, nenhum me agradou. Vai ver meu apego ao livro físico continua forte; o cheiro e as texturas das páginas são algumas das boas sensações da vida. Mais ainda quando a peça, por si só, é uma arte. Sei que há livros que jamais abrirei mão, que foram fundamentais para mim. Eles não somente trazem uma excelente história impressa, como também me despertam sentimentos e recordações que me levam, quase literalmente, para um outro lugar.

Acredito sim que é preciso se desprender de certos objetos que nada nos dizem e valorizar mais os seres humanos (ou ao menos, a própria vida), que muito têm a nos dizer. Sair, refletir, construir novos relacionamentos e histórias, amar e beijar, retirar-se da zona de conforto e solidificar novas memórias duradouras. Afinal, já diziam os poetas que somos apenas memória. Mudar de apartamento, cidade ou país, nos traz a sensação de recomeço, até de renascimento; podemos tentar adotar uma nova postura, enxergar o mundo de outra forma, adquirir alguns hábitos e se desenrascar de outros, mas nada disso será possível se não nos reconhecermos no agora, se não olharmos para o passado e resgatarmos a trajetória que nos levou até aqui.

Muitas vezes tendemos a esperar algo externo para que possamos mudar nossos hábitos. Por mais que mudar de casa, escola, trabalho, país etc. possa ser um bom impulso para tentar mudar como somos, a mudança externa, física, pouco ajudará para ocorrer a mudança interna. Essa só você é capaz de fazê-la e, por mais trabalhoso que possa ser, não é preciso nenhum caminhão de mudança. Talvez apenas uma caçamba de entulhos.

 

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Caçamba03

Um dos exemplos de livros que jamais abrirei mão.

 

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