A incerta certeza*

Por Frederico Boldrin F.

Dr. Heisenberg's Magic Mirror of Uncertainty, de Duane Michals, 1998.

Dr. Heisenberg’s Magic Mirror of Uncertainty, de Duane Michals, 1998.

Sabemos que aquele clichê de que a memória pode nos trair é verdadeiro. Além de não pensarmos de maneira cronológica tendemos a distorcer, mesmo que sem desejar, nossas velhas ou novas memórias. O escritor norueguês Karl Ove Knausgård, enorme sucesso em seu país e no mundo, narra em seis volumes – assim como Marcel Proust em Em busca do tempo perdido narra em sete – a história de sua vida. No 3° volume intitulado A Ilha da Infância, o autor mergulha em suas lembranças mais antigas de quando era uma criança em sua pequena cidade na Noruega. No começo do livro Knausgård diz que a lembrança é lançada por alguma coisa em direção ao vazio do esquecimento e que alguma coisa a distorce até torná-la irreconhecível. Para ele o que é lembrado de maneira correta jamais nos é dado a escolher.

O professor de neurociência da New York University, Pascal Wallisch poderia concordar com ele, já que afirma em uma matéria publicada no caderno Aliás, do jornal o Estado de S. Paulo, que não é surpresa o fato de que diferentes pessoas recriam o mundo exterior de diferentes maneiras. “O cérebro, em determinados momentos, está apenas supondo quando tenta perceber o mundo. Normalmente ele dispõe de informação para uma interpretação sem ambiguidade”.

Ao se escrever uma biografia, por exemplo, conseguimos identificar a importância de se ter diversos pontos de vista para construção da história. Sim, construção, já que nenhuma realidade física pode ser transportada para um texto com todas as suas complexidades. Essa construção é feita através de um mediador, no caso o escritor da história. Com diferentes pontos de vista sobre o mesmo personagem, ou o mesmo evento, conseguimos notar pontos em comum e assim a história pode ir se tornando cada vez mais próxima da realidade. É um processo de apuração jornalística, onde pesquisas e entrevistas podem nos dar boas respostas de como as coisas aconteceram. Lendo a autobiografia A Noite Da Arma do ex-colunista do New York Times David Carr, falecido em fevereiro de 2015, vemos o quanto a presença de diferentes pontos de vista é essencial.

Ao aprofundar suas investigações, Carr descobre que certos acontecimentos tiveram lugar apenas em sua cabeça, como na história que dá título ao livro, onde ele, após brigar com um amigo, vai até a casa dele para tirar satisfação. O amigo, assustado com o jeito truculento de David Carr, aparece com uma arma para espantá-lo. Quando o jornalista se reencontra com esse companheiro, anos depois do incidente, para entrevistá-lo no sentido de reconstruir o seu passado no livro, o amigo diz que quem estava com a arma não era ele, e sim Carr.

A construção de sua própria história pode ser muitas vezes transcendental; encontrar informações erradas que eram tidas como certas, ou certas que eram tidas como erradas, pode gerar um bom processo de análise ou até mesmo autoanálise, sempre em busca de melhorias, tanto para o biografado quanto para as pessoas ao seu redor.

* Artigo escrito a partir da dissertação para o Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo que está em andamento e será apresentado ao final deste ano na Universidade Mackenzie. 

O escritor Karl Ove Knausgård.

O escritor Karl Ove Knausgård.

Categorias: Nosso Ofício | Tags: , , , , , , , , , , | 1 Comentário

Navegação de Posts

Uma opinião sobre “A incerta certeza*

  1. É muito interessante encontrar a questão da lembrança, da memória não só como uma lente que define um acontecimento, mas também como algo que propicia investigação e autoinvestigação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: