Para meu pai

DSC02867Pai, se amanhã você estivesse aqui, almoçaríamos todos juntos o macarrão da Tia Lurdinha. Depois da siesta, eu te convidaria para tomar um café “só para nós dois” e contaria sobre as histórias, pedindo a sua bênção para meu trabalho.

Que falta eu sinto de compartilhar a vida contigo, ainda que a qualidade da escuta nem sempre fosse ideal, confesso. Fez parte da minha trajetória “ser surda” por um tempo, para ter o ímpeto de botar meu bloco na rua. O meu, e não o que você sonhava para mim.

Mas, pai, por mais perfeitamente imperfeita que fosse a nossa relação, nunca nos faltou a confiança mútua, incondicional. Porém, agora, como cidadã tenho vivido um momento de escuridão. Tudo está esquisito demais. O país está vivendo uma crise de confiança tão árida, que, ao menos, me faz ver um sentido ainda maior nas histórias de vida que tenho a chance de escrever e editar, ouvindo histórias sobre homens que honraram suas raízes e origens, lançando-se na direção de um propósito, acertando e  errando, num exercício contínuo de  construção da sua humanidade e dignidade.

Num tempo em que não se sabe mais quem é quem, o que me ajuda a compreender a riqueza e a legitimidade das histórias que ouço vem muito do que você me ajudou a conhecer.  O que elas têm em comum é o viço interior dessas pessoas e a força de fazer do trabalho um caminho de comunhão com Deus. Seus olhos são tão brilhantes como eram os seus. Olhos que convidam ao abraço de quem os reconhece.

Ah, seu Lelé, meu Fu, tenho abraçado muitos pais por aí e a cada novo projeto eu me lembro de você, enxergando além, dizer:

– Filha, teu negócio já pegou. Pegou no breu…

Casal feliz.

Casal feliz.

Pegou mesmo. Meu desejo de eternizar memórias e inspirar histórias é como um balão que se abastece do calor de bons encontros e belas reflexões.

Pena que não tive oportunidade de registrar sua história, como isso me dói. Ao menos, no meu íntimo ela está registrada. Um dia, quem sabe, me debruço sobre essa missão. Por enquanto, sigo feliz em poder contribuir com a relação de outros tantos pais e filhos.

Pai, ser órfã é muito chato, mas a qualidade da saudade que sinto de você é um privilégio.

Bença, Pai. Te amo.

Regina Magalhães

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