Se te conheço, eu me reconheço

Por Silvia Noara Paladino

No café em que conversamos, próximo à Avenida Paulista, chamo a atenção de minha xará para o quadro logo acima de nossas poltronas. Ele revela uma foto em preto e branco, de uma calçada qualquer, por onde alguém deve transitar rotineiramente a caminho do trabalho, pensando na vida. Junto à imagem, uma frase em inglês. Na tradução: “Todos nós precisamos de um tempo para nós mesmos – apenas alguns minutos por dia, para nos familiarizar novamente com aquele que tem estado lá desde o início”. Ela gosta do que lê, e se lembra do que não deve se esquecer, mesmo nesses dias tão corridos.

O fato é que, mesmo que o tempo consiga fintá-la, Sylvia Beatrix pode olhar para si mesma através de Tiago, o filho de 14 anos. Não dá para saber se há mais dela gravado nele ou mais dele transmitido a ela, mas, quando de frente um para o outro, é como um espelho. Ambos escorpianos, teriam nascido, naturalmente, na mesma data, não fosse a opção da mãe pelo agendamento do parto cesariano e a decisão de não embolar as coisas. Ela nasceu em 15 de novembro; ele, um pouco antes, no dia 9.

Depois de uma temporada recente de dois anos e meio na casa do pai, o novo adolescente voltou a morar com Sylvia, na fase em que ela define como aquela de rejeição à figura da mãe. Por isso, não leva a sério qualquer bobagem que sai pela boca do filho. Após uma frase torta ou resistência que acaba em briga, logo inventam um lanche na cozinha para se reaproximarem. Afinal, ela o compreende mais do que ele mesmo pode entender sobre si próprio. São iguais, até nas diferenças que esculpem a individualidade tão particular de Tiago.

Se Tiago representa a tempestade, Camilla, por sua vez, é a calmaria. É assim desde que foi concebida. A gravidez e o parto da primeira filha foram tranquilos, bem como tudo o que veio depois. À noite, não acordava nem para mamar ou trocar a fralda. Pela manhã, quando entrava no quarto da bebê, lá estava ela, serena e despreocupada. A garotinha já contagiava a mãe com bom humor e paciência. E à Camilla, ela atribui a descoberta de um amor involuntário, sólido e perene.

Na sala de parto, a nova mamãe não teve tempo de perceber o que acabara de acontecer. Quando a enfermeira se aproximou com a bebê no colo, por alguns instantes, Sylvia reparou em apenas duas coisas: a boca no formato de coração, que Camilla tem até hoje, e as mãos, tão iguais às suas, com as unhas quadradas. Ela sabia que, com essas poucas pistas, seria capaz de reconhecer a filha imediatamente. Quando a pequena foi levada ao quarto e Sylvia a segurou nos braços, o mundo já não era mais o mesmo. Ela explica o sentimento que a tomou com um choro impulsivo, que bate com força no peito, e o bloqueio das palavras. E basta.

Não dá para revelar a Sylvia sem falar sobre os seus filhos. Não porque ela tenha a presunção de pertencê-los ou a visão limitada de que a vida se resuma a eles. Não. Ela se satisfaz com o papel de ser apenas o canal para que os filhos viessem ao mundo. Isso é o suficiente para justificar tudo o que faz para eles, pois o faz por si mesma. Os filhos são o seu veículo de evolução. E não tem essa de comercial de Margarina. A família funciona como o chão em que pisa, com todas as imperfeições e tropeços intrínsecos às relações humanas.

Espontânea e autêntica, Sylvia é a mãe que arrasta os filhos para espetáculos, shows, exposições. Custe o que custar, Camilla e Tiago terão cultura. Disso não abre mão. Também não adianta tentar convencê-la sobre a ditadura da beleza. Ela não vai tingir os cabelos. Quer permitir que os fios brancos e o tempo gravem as marcas que bem entenderem. Afinal, para que mudar o que a natureza decidiu? Ela fala com segurança, propriedade, e parece avaliar a todo o tempo se está sendo claro, se usou a palavra correta, se o discurso tem coerência e continuidade. Como um roteiro não planejado previamente, mas que se compõe fácil e bonito de se ouvir.

Como educadora de si mesma, dos filhos e de qualquer pessoa motivada a trocar experiência e conhecimento, ela respeita a palavra. A palavra e o indivíduo. Como voluntária, trabalha no Instituto Fazendo Minha História, que incentiva crianças moradoras de abrigos a contar e registrar o seu passado, para que se lembrem de onde vêm e que são protagonistas dessa história. Porque dividir a dor com alegria, sem julgamento, é humano. E o humano a encanta. Ela narra a vida real, e como narra bem! Aos 50 anos, Sylvia pensa em escrever um livro. A gente só fica aqui, torcendo.

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4 opiniões sobre “Se te conheço, eu me reconheço

  1. Denise Goulart Penteado

    Mão é preciso conhecê-la de perto para identificar e logo lembrar da risada solta da Sylvia….é isso, Silvia Noara!

    Denise Goulart

  2. Silvia Noara, você soube captar a essência da Sylvioca no que ela tem de mais bonito : o lado maternal e humano . Isto fica evidente para todos os que convivem ou conviveram com ela porque aflora de uma maneira muito especial. Parabéns!

  3. É uma honra ser o motivo de um texto tão bonito e verdadeiro. Sylvia Beatrix, você merece muito isso! Parabéns.

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