O passado é vizinho do Brasil

Por Rodrigo Casarin

Chegamos ao Uruguai com o Sol brilhando em um belo céu azul, que apenas disfarçava a temperatura de 10º que esperava pela Bel, minha namorada, e por mim, . Depois de largarmos as coisas no hotel mais barato que encontrei pelo centro da cidade, fomos dar uma volta. Caminhamos até a bela Praça da Independência, a mais famosa da capital uruguaia.

As ruas de Montevidéu são repletas de prédio antigos, nem sempre conservados, cheias de praças bem cuidadas e permeadas por árvores, que, no inverno, despem-se completamente de suas folhas – devem proporcionar um maravilhoso espetáculo de cores durante a primavera. O pacato e atencioso povo uruguaio usa a cidade como uma extensão de suas casas, tomando seus mates, conversando e curtindo as vias públicas, não apenas como um espaço para se deslocar de um lugar a outro.

Na nossa primeira noite na cidade jantamos em um restaurante que poderia muito bem ter servido como um dos cenários de O Poderoso Chefão. Um lugar pequeno, apertado, de luz tênue e móveis de madeira. Ali, dois grandes bifes de uma ótima picanha, uma generosa porção de fritas, uma cerveja e um suco nos custaram menos do que duas promoções de lanches vagabundos em São Paulo. Uma pechincha para os mãos de vaca, um deslumbre para os carnívoros, quase que um paraíso para mim.

No dia seguinte, estádio Centenário, palco da final da primeira edição da Copa do Mundo, em 1930. Apesar de bastante deteriorado, o lugar é um destino sagrado para os amantes do futebol, que nele experimentam a sensação de reviver a história do jogo. Não há como passar por lá e não pensar em como o esporte mudou ao longo dos anos. O quanto se tornou mais atraente para os que pensam em cifras; o quanto perdeu sua essência para os mais românticos.

Saímos do estádio, almoçamos e pegamos um ônibus até o Mercado do Porto. Bastou entrarmos no prédio para que o arrependimento de já termos comido batesse. Pelas estreitas ruas do mercado estão distribuídas dezenas de restaurantes que, em sua maioria, servem parrillada, um prato com diversos cortes de carnes assadas. A tentação não se dá pelos cardápios, mas pela forma com que os uruguaios fazem o seu churrasco: em grandes grelhas que ficam inclinadas para que a gordura escorra por canaletas e não transforme a brasa em fogo, expondo os diversos tipos de carnes a todos os que por ali passam. Impossível não ir embora com o agradável defumado de quem pilota a churrasqueira.

Para fechar o dia, um passeio pela Rambla, avenida com mais de 20km de extensão que beira o Rio da Prata. É em sua margem que muitos uruguaios aproveitam a praia, andam pelo calçadão, pescam ou simplesmente se acomodam em um banco para admirar tranquilamente a paisagem enquanto o dia chega ao seu fim. Foi exatamente o que fizemos.

À noite, fomos a um cassino (há vários na cidade), uma experiência inédita para ambos. Esperava encontrar um ambiente parecido com os dos filmes, contudo, nele havia apenas máquinas e mais máquinas de caça-níqueis. Nada de grandes mesas lotadas de pessoas apostando até a mãe em jogos de cartas distribuídas por um crupiê de roupa impecável, bigode fino e cartola. Uma decepção com trilha sonora de uruguaios tocando músicas brasileiras, de “Morango do Nordeste” a “Não deixe o samba morrer”.      No dia seguinte, pegamos um ônibus para Colônia do Sacramento, cidade fundada por portugueses, considerado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. A primeira vista que temos do espaço histórico é um pedaço de uma antiga muralha de pedra. Ao passarmos pelo portal da construção, a sensação é que voltamos alguns séculos na história. Ruas e casas também feitas de pedras aparecem aos montes, convidando os turistas a caminharem pelas estreitas vielas e descansarem em bancos e muretas à beira do Rio da Prata. De cima de um farol, é possível ter uma vista panorâmica de boa parte da cidade. Em cada esquina, um novo ângulo para uma bela foto se revela.

Pouco mais de quatro horas são suficientes para conhecer e aproveitar todo o centro histórico de Colônia, mas vale esperar o resto do dia passar em algum banco à beira do Rio da Prata para ver a cidade à noite. Ao cair do Sol, a escuridão é quebrada por luzes amarelas vindas de antigas lanternas. Esse efeito deixa as ruas com uma beleza sombria – e gelada no inverno.

Voltamos para Montevidéu. Nosso avião partiria no dia seguinte.

Antes de irmos embora, demos uma última volta pelas ruas da capital uruguaia. Já havia lido que aos domingos a cidade fica vazia, mas não esperava encontrá-la semideserta. Às dez da manhã nem o Sol havia acordado ainda. Tomadas por uma densa névoa, nas ruas estavam apenas alguns turistas e poucos pedintes.

O avião decolou às 14 horas, com a névoa ainda tomando conta de todo o lugar. Definitivamente, a cidade havia tirado o dia para dormir.

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