Profissão

Por Regina Magalhães

Gosto das hImageistórias de vida que nos fazem refletir, sonhar, chorar ou rir. Sim, adoro as memórias que afloram gargalhadas. Como é bom achar graça de situações vividas. Na hora, um drama, anos depois, uma pândega.

Tenho uma em especial, bem boba. Era 2002, quando eu tinha 33 anos. Precisei ir ao cartório para fazer um destes documentos chatos. Na época, entre mesas enfileiradas, cada uma com sua máquina de escrever, em meio às paredes forradas de madeira de uma cor triste que combinava com o ar das pessoas fadadas ao trabalho burocrático, o escrivão fez um gesto para que eu me sentasse. Em seguida, ajustou o papel na máquina de escrever.

—Nome?

— Regina Marta Valeria Puccinelli Rapacci – soletrei o exagero de letras.

— Endereço?

— Rua Lisboa…  – Podia ser pior. Antes além do nome comprido eu morava na Avenida Diogenes Ribeiro de Lima…

— Estado Civil?

— Solteira – Esta era a pior parte da minha vida, ser solteira. Nem namorando eu estava. Quanta carência, pela ausência de um príncipe. Então, para minha surpresa, ele seguiu:

— Por opção?

Fiquei atônita. Será que eu andava demonstrando meus sentimentos até pelo tabelionário? Por trás da frieza, ali bateria um coração interessado por mim? Não fazia meu tipo. Suspirei e comecei a falar, sem pausa para respirar.

— Ah, mais ou menos. O senhor sabe, este “mercado” esta ruim, os homens não querem nada com nada. Quero encontrar alguém, mas não qualquer um, tem que ser um cara legal… Não sei se é por opção…

Quando levantei os olhos, o homem estava bufando, com os olhos arregalados e exclamou em três tons acima:

— PRO-FIS-SÃO. Eu perguntei: profissão!

Ao me dar conta do engano, fiquei mortificada. Respondi o resto das questões e não pude mais encará-lo. Peguei o documento e saí dali o mais rápido possível, constrangida.

Gosto das histórias de vida. Principalmente das que quase me mataram de vergonha e que hoje me matam de rir.

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É assim que começa um grande futuro

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Caçula

Por Regina Magalhães
É seu filho?

Ainda estranho a pergunta já feita mais de uma vez, mas devo reconhecer que ela não é de todo improcedente. Sorrio amarelo e respondo.
Quem vê o jovem alto e grande (leia-se um mix de forte e farto) com a barba cerrada e o franzir de sobrancelhas, o julga mais velho. Quando está sério, tem quase cara de mau. De gorro tricolor, então, que medo. E quando o celular toca evocando Don Corleone? E a luta marcial? Bobagem!  Não se iluda. No fundo, Rodrigo Casarin é um cara sensível, de coração maior que seu tamanho.
Aos 24 anos, reconhece na literatura um caminho para a  evolução humana por ser uma forma de conhecer as diversidades do mundo. Ao falar de Drummond, Dostoievski, Gay Talese, Jorge Amado,  ou qualquer talentoso escritor, ele o faz com intimidade e escreve em seu blog sobre tudo o que lê.
Outros quatro amores fazem parte da sua própria evolução: o time do São Paulo,  a arte de fazer cerveja, desbravar novos lugares e namorar a Bel. Então, é assim, ele rima letras e dribles; malte e gols, lúpulo e livros; Bel e destinos.
Na minha imaginação, quando ele “crescer” vai morar numa espaçosa biblioteca, com os mais variados e nobres títulos em diferentes línguas. Na cozinha, o espaço será dividido com fogareiros e panelas cervejeiras e por todas as paredes, imagens e símbolos das culturas e pessoas que conheceu ao redor do mundo, entre flâmulas do time…
Na multiplicidade humana, o singular carnívoro são paulino convive bem e harmoniosamente com vegetarianos e corintianos.  Para ele, diferenças são bem-vindas.
De raciocínio lógico e fala reta, vai direto ao ponto. Eu não. Eu olho, penso, sinto, sinto, penso e sinto mais um pouco e ele, se deixar, já foi e já voltou. Então, entre pulsos e impulsos, entre sua juventude bruta e o frescor da minha maturidade, formamos na escrita uma promissora dupla – tanto na autoria, quanto na edição. O desejo de contar histórias e contribuir com um legado na área literária da não-ficção nos une profundamente, é onde nossa essência se encontra. E ela se fortalecerá a cada história que ainda vamos contar.
Afinal, é seu filho?
Não, não é. Nós só nos conhecemos na Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), em 2009.  Ele não meu filho, é o caçula da dona Leonor e do seu Edwaldo.
Meu, ele é sócio!
Sorrio orgulhosa.

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Saiba

Porque a Biografias e Profecias é feita de gente.

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O passado é vizinho do Brasil

Por Rodrigo Casarin

Chegamos ao Uruguai com o Sol brilhando em um belo céu azul, que apenas disfarçava a temperatura de 10º que esperava pela Bel, minha namorada, e por mim, . Depois de largarmos as coisas no hotel mais barato que encontrei pelo centro da cidade, fomos dar uma volta. Caminhamos até a bela Praça da Independência, a mais famosa da capital uruguaia.

As ruas de Montevidéu são repletas de prédio antigos, nem sempre conservados, cheias de praças bem cuidadas e permeadas por árvores, que, no inverno, despem-se completamente de suas folhas – devem proporcionar um maravilhoso espetáculo de cores durante a primavera. O pacato e atencioso povo uruguaio usa a cidade como uma extensão de suas casas, tomando seus mates, conversando e curtindo as vias públicas, não apenas como um espaço para se deslocar de um lugar a outro.

Na nossa primeira noite na cidade jantamos em um restaurante que poderia muito bem ter servido como um dos cenários de O Poderoso Chefão. Um lugar pequeno, apertado, de luz tênue e móveis de madeira. Ali, dois grandes bifes de uma ótima picanha, uma generosa porção de fritas, uma cerveja e um suco nos custaram menos do que duas promoções de lanches vagabundos em São Paulo. Uma pechincha para os mãos de vaca, um deslumbre para os carnívoros, quase que um paraíso para mim.

No dia seguinte, estádio Centenário, palco da final da primeira edição da Copa do Mundo, em 1930. Apesar de bastante deteriorado, o lugar é um destino sagrado para os amantes do futebol, que nele experimentam a sensação de reviver a história do jogo. Não há como passar por lá e não pensar em como o esporte mudou ao longo dos anos. O quanto se tornou mais atraente para os que pensam em cifras; o quanto perdeu sua essência para os mais românticos.

Saímos do estádio, almoçamos e pegamos um ônibus até o Mercado do Porto. Bastou entrarmos no prédio para que o arrependimento de já termos comido batesse. Pelas estreitas ruas do mercado estão distribuídas dezenas de restaurantes que, em sua maioria, servem parrillada, um prato com diversos cortes de carnes assadas. A tentação não se dá pelos cardápios, mas pela forma com que os uruguaios fazem o seu churrasco: em grandes grelhas que ficam inclinadas para que a gordura escorra por canaletas e não transforme a brasa em fogo, expondo os diversos tipos de carnes a todos os que por ali passam. Impossível não ir embora com o agradável defumado de quem pilota a churrasqueira.

Para fechar o dia, um passeio pela Rambla, avenida com mais de 20km de extensão que beira o Rio da Prata. É em sua margem que muitos uruguaios aproveitam a praia, andam pelo calçadão, pescam ou simplesmente se acomodam em um banco para admirar tranquilamente a paisagem enquanto o dia chega ao seu fim. Foi exatamente o que fizemos.

À noite, fomos a um cassino (há vários na cidade), uma experiência inédita para ambos. Esperava encontrar um ambiente parecido com os dos filmes, contudo, nele havia apenas máquinas e mais máquinas de caça-níqueis. Nada de grandes mesas lotadas de pessoas apostando até a mãe em jogos de cartas distribuídas por um crupiê de roupa impecável, bigode fino e cartola. Uma decepção com trilha sonora de uruguaios tocando músicas brasileiras, de “Morango do Nordeste” a “Não deixe o samba morrer”.      No dia seguinte, pegamos um ônibus para Colônia do Sacramento, cidade fundada por portugueses, considerado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. A primeira vista que temos do espaço histórico é um pedaço de uma antiga muralha de pedra. Ao passarmos pelo portal da construção, a sensação é que voltamos alguns séculos na história. Ruas e casas também feitas de pedras aparecem aos montes, convidando os turistas a caminharem pelas estreitas vielas e descansarem em bancos e muretas à beira do Rio da Prata. De cima de um farol, é possível ter uma vista panorâmica de boa parte da cidade. Em cada esquina, um novo ângulo para uma bela foto se revela.

Pouco mais de quatro horas são suficientes para conhecer e aproveitar todo o centro histórico de Colônia, mas vale esperar o resto do dia passar em algum banco à beira do Rio da Prata para ver a cidade à noite. Ao cair do Sol, a escuridão é quebrada por luzes amarelas vindas de antigas lanternas. Esse efeito deixa as ruas com uma beleza sombria – e gelada no inverno.

Voltamos para Montevidéu. Nosso avião partiria no dia seguinte.

Antes de irmos embora, demos uma última volta pelas ruas da capital uruguaia. Já havia lido que aos domingos a cidade fica vazia, mas não esperava encontrá-la semideserta. Às dez da manhã nem o Sol havia acordado ainda. Tomadas por uma densa névoa, nas ruas estavam apenas alguns turistas e poucos pedintes.

O avião decolou às 14 horas, com a névoa ainda tomando conta de todo o lugar. Definitivamente, a cidade havia tirado o dia para dormir.

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Quem dera fossem essas as folhas a cair com o outono…

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O palhaço humaninho

Por Rodrigo Casarin

O ano é 2009 e Frederico Linardi trabalha incessantemente. Escreve todo mês para até cinco revistas, duas vezes por semana transforma-se em assessor de imprensa, e em outro dia da semana auxilia em toda a comunicação de uma clínica médica. Aproveita cada brecha no relógio para resolver algo. É um homem sério e super atarefado, como manda a cartilha. Trabalha, trabalha, trabalha. O semblante de tragédia que possui quando chega em casa até desanima Renata, sua esposa, mas não há tempo para se recompor. Precisa trabalhar mais, trabalhar, trabalhar. Ainda faz uma hora de francês por semana, isso quando não falta à aula para trabalhar um pouco mais. Passa meses sem conseguir terminar de ler sequer um livro, não tem tempo para tal luxo. Contudo, ao olhar a conta no banco, a recompensa. Nunca ganhara tanto dinheiro na vida. E o melhor, pouco gasta. Não tem tempo para isso também. Enquanto Frederico acumula números no banco, distancia-se de tudo o que mais gosta, afasta-se de si mesmo.

Fred mudara-se de Americana para São Paulo para cursar Jornalismo em 2001 e, depois do choque inicial, habituou-se à cidade. Anos depois, da janela de seu apartamento conheceu a bailarina Renata. Ambos trocavam olhares, até que um dia o garoto resolveu interfonar para a menina que admirava no outro bloco. Combinaram um cinema. Combinaram de namorar. Combinaram de morar junto. E hoje combinam de casar em junho.

As obrigações com a casa, com a vida e a pressão por não desperdiçar oportunidades fizeram com que Fred acabasse virando um refém do trabalho. Não queria isso para a sua vida e decidira que o ano de 2010 seria diferente. Trabalharia menos e faria mais coisas que lhe dessem prazer. Levou o francês mais a sério e resolveu fazer um workshop de palhaços com o grupo Jogando no Quintal.

Desde a infância, o rapaz já admirava os artistas pintados que arrancavam gargalhadas de toda a plateia presente no circo – uma das raras e efêmeras opções de lazer em uma cidade de interior. Também gostava de assistir a peças de teatro e filmes com palhaços, mesmo os que não se vestiam como tal, mas tinham a essência desta figura. Afinal, como não considerar Charles Chaplin um grande palhaço?

A realização do workshop fez com que Fred percebesse que poderia vencer a sua timidez, marca que só não lhe é latente porque é tímido demais para transparecê-la, e levar a palhaçada a sério. Agradava-lhe a maneira que o grupo realizava as brincadeiras. Nada de clássicos como torta na cara ou escorregões em cascas de banana, tudo acontecia – e ainda acontece – na base do improviso, criando piadas em cima de temas sugeridos por alguma pessoa, normalmente da plateia. Gostou da experiência e resolveu fazer um outro workshop que e mesma companhia ofereceu no mês seguinte, com a palhaça Gabriella Argento. Um novo curso se formou e seguiu ao longo de dois anos. Agora, em 2012, essa turma que se manteve unida desde então resolveu se tornar um grupo, chamado de Humaninhos.

Quando está em cena com os Humaninhos, Fred incorpora Pacífico, um palhaço que parece deslocado entre seus pares, não é muito de rir, é crítico, gosta de algumas travessuras nojentas, adora cantar e brinca até com o nascimento de Jesus Cristo. Fred encontra na prosa do escritor uruguaio Eduardo Galeano, no texto Humaninhos*, uma das melhores maneiras de descrever Pacífico, que, mais do que personagem, é uma parte do seu próprio criador.

“Um palhaço se cria com aquilo que está dentro de você, expondo as suas sombras, enxergando os seus problemas e brincando com eles, chegando na essência dos dramas, transformando as tragédias em festas. Ele é  tudo aquilo que os pais ensinam os filhos a esconder. O palhaço é um ser totalmente autobiográfico, pois é feito em cima da história de vida do seu criador. Vestimos a menor máscara – o nariz – para tirarmos todas as outras”, explica Fred. Essa exposição do eu de quem interpreta o palhaço faz com que o próprio ator tenha que criar uma casca para não se machucar. Se Pacífico fizer alguma graça sem graça em cima dos palcos, é de Fred que as pessoas vão rir e debochar pela incompetência em se construir a piada. O palhaço é um ser sem orgulho ou preocupação, sem passado ou futuro. Vive apenas o momento. Pode sair da tristeza de um funeral para a alegria de um carnaval em questão de segundos. Uma ação leva a outra, sem qualquer tipo de julgamento. Um palhaço apenas não vive sem a plateia e seus parceiros, elementos essenciais para que a encenação se sustente.

Trabalhando menos e tendo mais tempo para se dedicar a tudo o que gosta de fazer, no final de 2011 chegou o momento de Fred e Pacífico estrearem nos palcos de um teatro. Para quem odiava se apresentar até para os parceiros de grupo, aquele era um grande desafio. No dia da apresentação, a clássica vontade de ir ao banheiro apareceu também para Fred, que viu a sua garganta secar e pensou diversas vezes em que grande burrada havia feito ao aceitar o convite para tamanha exposição. “Ali não é o seu lugar, não devia ter chamado meos pais, porque fiz isso…”, pensava. Contudo, mesmo assim foi em frente e, ao sair aplaudido do palco, experimentou uma das melhores sensações de sua vida.

Atualmente, Fred toca a vida em um ritmo que lhe possibilita ter os seus prazeres, mas ainda não está plenamente satisfeito. Sonha um dia em sair com um circo pela estrada, rodando cidades e mais cidades do interior do Brasil e contar essa história. Quem sabe até levar Pacífico para conhecer os confins do país e ser conhecido por crianças e adultos dos mais diferentes lugares. Sonha em ir, mas também sonha em voltar. E, quando voltar, estará a bailarina à janela esperando pelo palhaço.

 

*Humaninhos (Eduardo Galeano)

 

Darwin nos informou que somos primos dos macacos, e não dos anjos. Depois, ficamos sabendo que vínhamos da selva africana e que nenhuma cegonha nos tinha trazido de Paris. E não faz muito tempo ficamos sabendo que nossos genes são quase iguaizinhos aos genes dos ratos.

Já não sabemos se somos obras-primas de Deus ou piadas do Diabo. Nós, os humaninhos:

os exterminadores de tudo,

os caçadores do próximo,

os criadores da bomba atômica, da bomba de hidrogênio e da bomba de nêutrons, que é a mais saudável de todas porque liquida as pessoas, mas deixa as coisas intactas.

os únicos animais que inventam máquinas,

os únicos que vivem ao serviço das máquinas que inventam,

os únicos que devoram sua casa,

os únicos que envenenam a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer,

os únicos capazes de alugar-se ou se vender ou de alugar ou vender os seus semelhantes,

os únicos que matam por prazer,

os únicos que torturam,

os únicos que violam.

E também
os únicos que riem,

os únicos que sonham acordados,

os únicos que fazem seda da baba dos vermes,

os que convertem lixo em beleza,

os que descobrem cores que o arco-íris desconhece,

os que dão novas músicas às vozes do mundo

e criam palavras, para que não sejam mudas

nem a realidade nem sua memória.

 

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Abuse da leitura durante o feriado!

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Nascença

Fred Linardi

Ao descer pela rua depois de sair de um ônibus que me deixou na Avenida Santo Amaro, na altura da Vila Olímpia, caminhei pelo trecho de volta para casa remoendo dezenas de ideias que passavam pela minha cabeça. Não conseguia entender minha indignação. Afinal, sair do interior para morar em São Paulo era para causar a inveja em muitos. Só que, naquela primeira semana de agosto, nada sinalizava que a experiência seria tão prazerosa quanto aparentava.

Era o ano de 2001 e minha vida começava a mudar, mesmo sem que eu percebesse com clareza. Havia passado no vestibular de jornalismo do Mackenzie. Meu pai vibrou com a ideia do caçula morar em São Paulo. Meu irmão mais velho, Luciano, já estava por aqui há uns meses. Com minha vinda, dividiríamos o apartamento de um prédio que ficava perto de onde ele estudava (e a 10 quilômetros da minha faculdade). Eu, com menos de um ano de experiência no volante, vim para São Paulo sem cogitar em dirigir pelo labirinto de ruas ocupadas por motoristas loucos e irresponsáveis.

As proporções da cidade me fascinavam. Tudo era imenso, os prédios diferentões, as pessoas… se via de tudo na rua. Se via de tudo também no penoso trajeto que eu teria que fazer diariamente, de pé, na linha de ônibus que ia do Terminal Santo Amaro para o Terminal Princesa Isabel. O itinerário sugeria que todos, sem exceção, chegariam a seus destinos realmente em fase terminal. Era difícil encontrar espaço para simplesmente entrar no coletivo. E, no meu ponto de descer – mais ou menos no meio do percurso – era difícil sair para a calçada libertadora. Era inconcebível para alguém do interior a ideia de levar mais que 15 minutos para fazer um percurso de 10 quilômetros. E eu no ônibus, de pé.

Na primeira semana de aula tivemos que ler um texto chamado O acaso dos nossos encontros seria determinado? – um capítulo de um livro chamado Os alimentos do afeto. E eu só pensava que diabo fazia numa metrópole, onde as pessoas pareciam não se encontrar, apesar de dividirem espaços de forma tão invasiva.

Depois de ser jogado para fora do ônibus, descer a rua ruminando pensamentos negativos, cheguei em casa e deitei na cama atônito. As perspectivas não tinham graça. Fazia tempo que eu não chorava. Talvez por aquele motivo até fosse a primeira vez. Não sentira isso nem mesmo quando passei onze meses fazendo intercâmbio, longe de todos que levei 17 anos para conhecer. A impressão que tive ao mudar para a capital foi a de ter tudo e nada ao mesmo tempo. A proximidade e a distância. Nunca me sentira tão isolado, mesmo estando apenas pouco mais de 100 quilômetros da minha cidade. A presença e ausência. Meus amigos pareciam estar para trás. E, de certa forma, ficaram. Foi difícil de entender, mas voltar seria algo insensato.

Hoje, ao olhar pela janela do meu escritório, no apartamento onde moro, ainda em São Paulo, vejo o cenário vibrando com o movimento lá fora. A cidade que pulsa trabalho tem sido assim há décadas, mas quando a vejo através do vidro, me remete aos últimos onze anos que se passaram, o tempo que assistiu à minha chegada nesta cidade que, apesar dos pesares, não me deixa partir. Minhas inquietações ainda existem, mas – ainda bem – não são mais as mesmas.

As vistas das janelas também mudaram. Saí da Vila Olímpia para um simpático prédio na Rua Bela Cintra. Passei a segunda metade da faculdade indo às aulas a pé, sentindo-me o mais privilegiado dos seres por este motivo. Até que, no último semestre, constatei que as coisas faziam sentido nas situações mais absurdas, quando conheci minha futura namorada, hoje já minha esposa, pela janela do meu quarto. Eu, do bloco B, acenei para uma garota de um dos apartamentos do bloco A. Ela respondeu e foi assim que outra história começou. Hoje nossa narrativa continua em outro prédio. Dividimos o mesmo espaço, que nos oferece outra vista.

Dentro de casa, escrevo meus textos para os livros e algumas revistas. A janela é outra. A cidade é a mesma. Depois de tantos anos, sei que fugir disso tudo não seria a solução. As andanças não entendem o que é uma fuga, pois se fugimos para por o fim numa história, acabamos construímos novos pontos de partida.

É uma sorte para todos nós os ângulos se mudarem, as histórias se fazerem e os encontros, de fato, se concretizarem. Estaria tudo determinado?

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Gente humilde

Porque a Biografias e Profecias é feita de gente.

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